Anais do I Colóquio Semiótica das Mídias. vol. 1, nº 1. João Pessoa, PB: UFAL, 2012.

Existe um ‘brainstorm’ global permanente acontecendo para elucidar a crise financeira mundial e a mídia corporativa não faz parte dele...

Maria das Graças Pinto Coelho
UFRN

 

A investigação articula as mudanças nas narrativas em coberturas da mídia no que concernem as inferências sobre corrupção e escândalos, associadas às crises econômicas. Para construir o corpus, revisitamos o acervo digital da revista Veja - Editora Abril, buscando reportagens relacionadas às crises econômicas dos anos noventa e comparamos com a cobertura da crise financeira iniciada em 2008. Ao todo, foram analisadas 67 revistas. Observamos 111 matérias que discorriam sobre economia e crises. Encontramos, apesar das reportagens estarem separadas por uma década, muito mais semelhanças do que diferenças na abordagem midiática. Inclusive, a pesquisa empírica foi desviada de sua trajetória inicial porque o ponto de partida era um pouco diferente da realidade dos textos. Hipoteticamente apostávamos em diferenças de abordagens, já que a doutrina neoliberal parece estar em declínio da década atual. Não nos deparamos com diferenças marcantes, e sim com o aprimoramento do discurso, ou seu recobrimento, agora com mais poder para se constituir em domínios de objetos relacionados ao sujeito e ao sofrimento social. Temos já aí um aspecto que parece ser importante para os estudos de Comunicação – pois reitera uma constatação frequente: o componente comunicacional é um processo influente nas ações cotidianas dos sujeitos sociais. E a efetividade dessa comunicação e seus desdobramentos podem estar diretamente relacionados à eficácia dos processos de enunciação e agenciamento, independente de existir ou não interação entre os participantes diretos e indiretos. O conceito de agenciamento parte de contribuições seminais e singulares dos autores Jacques Derrida e Gilles Deleuze, que pode ser definido, em linhas gerais, como um conjunto de perspectivas filosóficas vinculadas a um questionamento radical das concepções de linguagem e de discurso direto que apresentavam o sujeito humanista. Novos caminhos investigativos e saídas metodológicas foram propostas por eles para escapar das totalizações e homogeneizações das metanarrativas. Explicitaram-se os processos pelos quais as verdades são produzidas, os saberes inventados e os conhecimentos construídos. Renovou-se o interesse pela história,especialmente na medida em que ela envolvesse a “formação do sujeito”, em abordagens nas quais as narrativas genealógicas substituíram questões de ontologia e essência. Segundo eles, o caráter social do enunciado deriva de um “agenciamento” complexo e coletivo da palavra de ordem que o identifica e indica a redundância do ato, ou da ação, que é a nota própria das atividades humanas em sociedade. Elegemos como tarefa reconhecermos a fonte dos discursos, o princípio de expansão deles e a continuidade da conversação que ultrapassa as condições internas dos textos e que dá lugar a uma série aleatória de acontecimentos.