Anais do I Colóquio Semiótica das Mídias. vol. 1, nº 1. João Pessoa, PB: UFAL, 2012.

Circulação, o ‘ponto-cego’ que se desvenda

Antônio Fausto Neto
UNISINOS

 

A circulação deixa de ser uma espécie de “ponto de passagem” onde sentidos de discursos entre produtores e receptores de discursos se manifestariam de modo automático, para se constituir num “ponto de articulação” onde se desenvolve uma atividade enunciativa interacional de natureza assimétrica, e na qual os sentidos se manifestam segundo lógicas de indeterminações (Fausto Neto, 2010). Aponta-se um deslocamento da problemática da produção do sentido, dos âmbitos de produção/recepção de mensagens, para o da circulação, complexificando a atividade enunciativa midiática-jornalística, instituindo uma nova “arquitetura comunicacional”, e gerando uma nova dinâmica tecno-disvcursiva, em termos de interação. A circulação deixa de ser uma “zona de passagem”, na qual se daria um transito linear de discursos, para se transformar num espaço de interfaces, segundo outro tipo de trabalho enunciativo, de natureza assimétrica cujas marcas de sua manifestações geradas por produtores e receptores, se tornariam empiricamente, mais visíveis. Nela, se defrontam produtores e receptores tentando “ajustar” o funcionamento de um jogo intersubjetivo, algo impossível de ser efetivado já que a natureza deste trabalho. A articulação entre produtores e receptores não pode ser entendida como uma justaposição, mas um “encontro” de pluralidades de lógicas, aquelas dos sistemas midiáticos e outros que expressam discursos advindos dos atores sociais, que se constroem em diferentes modalidades. Os processos de circulação de natureza tecno-discursiva que se desenvolvem na sociedade em midiatização, criam possibilidades de, por exemplo, novas interações das práticas jornalísticas com o mundo do leitorado. Novas narratividades se estruturam a partir da circunstância na qual o processo da circulação põe em movimento a enunciação como acontecimento, e também o trabalho enunciativo do jornalista, transformando-o em um novo tipo de ator, o qual se distancia do tradicional “elo de contato”. Os processos de circulação estariam produzindo muitos efeitos, especialmente no âmbito dos “pactos contratuais” envolvendo jornais e leitores. Um deles, sempre é lembrado, mas superficialmente investigado, ao assinalar que o processo da produção jornalística estaria escapando das mãos dos seus “peritos”, com a ascensão do leitor na paisagem das rotinas, resultante dos processos de circulação. Vale destacar que além das possíveis “fugas” que estariam acontecendo, o fato de que, à margem das possíveis dissoluções de posições ocupadas pelos jornalistas, há um deslocamento que a circulação impõe à performance do jornalista, especialmente no ato de produção enunciativa , sem que se faça necessária sua saída de cena das suas rotinas. Os “contratos” não se fundam mais nos ideais de produção de antigos vínculos, mas em procedimentos que visam estimular novas formas de interface. Práticas, por força dos dispositivos circulatórios, estimulam outras formas de atuação dos leitores, enquanto atores sociais. É possível que as mesmas não suprimam as dimensões regulatórias que são ainda exercidas por instituições jornalísticas, e que permanecem em certas circunstancias, como atores centrais, especialmente na compatibilização entre conteúdos de materiais recebidos, com os da redação. A circulação eclipsa singularidades de processos de produção e de recepção em torno de novas interações entre sistema jornalísticos e leitores (sistema e meio na perspectiva de Luhmann), algo que afeta estrategicamente, a condição de mediador do jornalista e, principalmente, o seu trabalho de observador de processos de operações realizadas pelas instituições e pelos atores sociais. A circulação não se trata de uma “zona de passagem” na qual o ator caminha na sua inércia, mas de uma complexa região de interpenetrações, enquanto pregnâncias. Suas características deslocam o ato comunicacional de uma problemática representacional para uma nova problemática enunciativa. A enunciação jornalística sinaliza que o acontecimento por ela tecida é resultante de uma nova processualidade posta em marcha pela dinâmica do dispositivo circulatório que funciona como gerador de potencialidades. Há uma outra modalidade de narratividade que chama atenção sobre a complexidade dos processos de circulação, segundo marcas de um trabalho enunciativo relacionado com a existência desta a “zona de interpenetração”. Isto se expressa particularmente, pela força que tem o “sistema midiático” na constituição da “topografia” desta zona na qual se travam as possibilidades de construção de um outro discurso, enquanto uma conversação entre produtores e receptores. Reflete-se sobre as implicações da transformação da circulação de um “ponto de passagem” em uma “zona de articulação” que envolve produtores e receptores de discursos. Particularmente, enfatizamos os efeitos dessa transformação sobre o trabalho de enunciação que se faz nas práticas jornalísticas, destacando dois aspectos: se por um lado a enunciação continua sendo um grande acontecimento responsável pela construção do enunciado, por outro lado este ato pelo qual se transforma o dizível em dito é afetado, largamente conforme manifestações empíricas observadas junto ao processo de circulação. Há fenômenos muito novos que se passam crescentemente nesta zona de contatos envolvendo sistema midiático de atores sociais, e que precisam ser aprofundados. Se a circulação está envolta em muitas complexidades, as quais requerem marcos analíticos mais elaborados, as pistas de seu funcionamento estão aí já nos próprios materiais midiáticos e na ação dos seus peritos (para ser investigados), conforme aqui se tentou analisar.