Anais do I Colóquio Semiótica das Mídias. vol. 1, nº 1. João Pessoa, PB: UFAL, 2012.

Páginas da morte: narratividade e estética jornalística no SuperNotícias

Bruno Souza Leal
PPGCOM/UFMG

 

O artigo, vinculado ao Projeto Capes/Procad (Unisinos/UFMG/UFRGS/UFSC) “Tecer: Jornalismo e Acontecimento”, em conclusão, apresenta reflexões oriundas de um exercício metodológico realizado que buscou apreender as formas como a morte se inscreve nas narrativas jornalísticas. Os pressupostos que orientam a proposta consideram que as mídias não desencadeiam de maneira unilateral o interesse da audiência por determinados assuntos ou os torna visíveis segundo exclusivamente o seu critério. Portanto, o contato com os produtos midiáticos é uma atividade diária, imersa, constituída, constituinte e envolvida por esse cotidiano. O exercício, portanto, observa a morte inscrita no sistema midiático e menos nas estratégias de noticiar e vincula-se a um esforço de superar ou complementar metodologias que ainda supõem uma visada midiacêntrica, mantendo o foco na integração mídia/vida social. Além disso, visa apreender os lugares diversos e arbitrários de acionamento das mídias, atentando-se para o diálogo entre vida cotidiana e as mídias. Os processos de disseminação midiáticos são entendidos como alicerçados numa lógica de dispersão, circulação e negociação intermitente, baseados em múltiplas biografias dos sujeitos engajados espacial e temporalmente situados, e com isso constituem-se como “zonas de interseção” de diferentes dimensões da experiência. Nessa perspectiva, a morte, acontecimento-limite que desafia a racionalidade humana, é apreendida em edições do jornal impresso SuperNotícias, o mais vendido do pais. Tabloide e visto como sensacionalista, o SuperNotícias traz regularmente diferentes histórias sobre crimes, acidentes e investigações, produzindo uma narrativa que extrapola os limites de uma notícia. Essa narrativa se constitui claramente com a experiência de refiguração (RICOEUR, 2010) do leitor/receptor e a articulação de unidades informativas numa rede textual (ABRIL, 2007), numa mise-en-intrigue, na qual o espaço da página do jornal, com sua variedade de textos e elementos, tem papel decisivo. Com isso, abre-se a oportunidade de refletir tanto sobre a narratividade jornalística como para a experiência da morte, inclusive na mobilização e atualização de tradições estéticas caras ao jornalismo, como o realismo, o melodrama e o sensacionalismo.