Anais do I Colóquio Semiótica das Mídias. vol. 1, nº 1. João Pessoa, PB: UFAL, 2012.

Ronaldo Cunha Lima: fragmentos de uma morte midiatizada

Sandra Moura
UFPB

 

O texto procura problematizar a relação mídia e política, no caso da morte do ex-governador da Paraíba Ronaldo Cunha Lima, em julho de 2012. A problematização dessa cobertura da mídia paraibana envolve três aspectos: 1) papel central da “imprensa do coração” para alçar Ronaldo Cunha Lima à categoria de olimpiano; 2) conflito na transformação do político em poeta e/ou vice-versa; 3) dificuldade de omitir da biografia de Ronaldo a tentativa de assassinato ao ex-governador Tarcísio Burity. A angulação determinada pelas forças de atuação na construção da morte de Ronaldo Cunha Lima envolve o valor econômico - quanto um personagem como Ronaldo pode gerar de audiência local - e a comoção popular. Munidos desse feeling com o leitor/a, os jornalistas trouxeram os fatos para a redação transcritos de seus corações. Teve colunista que buscou restaurar tão somente a relação entre ele e o poeta por meio de lembranças de momentos emocionantes da convivência de ambos. Os jornais registraram o acontecimento em diferentes espaços de suas edições, gerando cadernos especiais, acolhida em manchetes de primeira página e em colunas. As manchetes já ligam Ronaldo à imortalidade: “O descanso do poeta”, “Quero morrer de manhã”, “Era uma vez um poeta” e “O adeus ao poeta”. Ao mesmo tempo em que imortalizam o poeta os jornais precisam do corpo do ex-governador para transformá-lo em mercadoria. As notícias sobre a morte, as pesquisas sobre a trajetória do poeta e político, somam-se aos anúncios publicitários em forma de homenagem. São manifestações de empresários, governo, partido político e amigos. O jornalismo e a publicidade aqui convivem como se fossem um só sistema. Na cobertura da imprensa, Ronaldo Cunha Lima é blindado de críticas ou comentários mais fortes. Em determinado momento, um dos jornais ensaia que o ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, fez duras críticas à postura de Ronaldo, que renunciou ao mandato de deputado federal para não ser julgado pelo Supremo no episódio do restaurante Gulliver (local da tentativa de assassinato a Tarcísio Burity). Quais as duras críticas do ministro? Não estão ditas no jornal. Joaquim Barbosa poderia ser o único personagem a se contrapor ao herói. Pois já não dava mais para esperar isso dos adversários políticos do ex-governador. Eles já tratavam Ronaldo como “uma pessoa muito humana e de alta responsabilidade”.