Anais do I Colóquio Semiótica das Mídias. vol. 1, nº 1. João Pessoa, PB: UFAL, 2012.

Semiótica e gramática do design visual: olhares do cartaz de guerra

José David Campos Fernandes
UFPB

 

Imagens produzem e reproduzem relações sociais, comunicam fatos, divulgam eventos e interagem com seus leitores com uma força semelhante à de um texto formado por palavras. Como gênero eminentemente imagético, o cartaz, além de uma compreensão, também requer em sua textura um processo de persuasão, construído por um produtor para conquistar seu leitor. Nele, uma cadeia de elementos não-verbais dispostos na sua superfície de papel é permeada por estratégias que, na maioria das vezes, passam despercebidas pelo leitor comum. Ancorado nesta perspectiva, buscamos verificar como as representações dos elementos não-verbais neste gênero estão estruturadas de modo a influenciar o olhar, a leitura e a apreensão das mensagens nele impressas. O corpus, recolhido em sitios eletrônicos especializados, constituiu-se de um cartaz produzido pelo governo britânico, para recrutamento de soldados durante a primeira guerra mundial, e aqueles com os quais ele mantém diálogo, veiculados após sua publicação. Do ponto de vista metodológico, entrelaçaram-se: i) os estudos desenvolvidos por Charles Sanders Peirce (1974), notadamente, as diferentes categorias e leis próprias de organização dos signos; ii) a abordagem funcionalista da gramática do design visual proposta por Kress e van Leeuwen (2000), para quem há, nos textos imagéticos, uma metafunção representacional (descreve os participantes em uma ação), uma interacional (descreve as relações sócio-interacionais construídas pela imagem) e uma outra composicional (que combina seus elementos); iii) a perspectiva bakhtiniana do signo, tomado em seu aspecto ideológico. A análise confirmou a hipótese de que o código visual, assim como a linguagem verbal, possui formas próprias de representação, na medida em que constrói relações interacionais e constitui relações de significado a partir de sua arquitetura. Nesse sentido, diz-se que a fotografia de guerra é um manancial semiótico cuja atualidade precisa ser explorada, posto que sua engenharia responde a um arsenal de múltiplas possibilidades apresentadas pelo avanço tecnológico da informação e da comunicação – razão de ocupar os mais variados espaços no mundo –, mas pouco tem despertado o interesse da pesquisa linguística. Em última instância, a investigação realizada trouxe à tona como as referidas fotografias foram usadas por diversos líderes, de países distintos, como ferramenta para "venderem" a idéia da guerra para a população. Pode-se afirmar, então, que os cartazes estudados estabelecem um contato físico do texto com o leitor-observador, que executa a atividade crítica de desvelamento em relação ao que lê, na busca da apreensão de significados e horizontes pré-calculados pelo produtor desses gêneros impressos.