Anais do I Colóquio Semiótica das Mídias. vol. 1, nº 1. João Pessoa, PB: UFAL, 2012.

Risco, sofrimento e política nas narrativas do Jornal Nacional sobre as epidemias de dengue (1986-2008): notas para pensar as relações entre mídia e saúde na atualidade

Janine Miranda Cardoso
LACES/ICICT/FIOCRUZ

 

O trabalho reflete sobre as relações entre mídia, saúde e política, a partir da análise da cobertura das epidemias de dengue realizada nas últimas três décadas pelo Jornal Nacional (JN), da Rede Globo de Televisão. Discutir como a lógica do risco incide sobre essas narrativas midiáticas constitui seu principal objetivo. Distante das abordagens que veem nas mídias apenas aparatos de transmissão de informações, utilizados de forma mais ou menos acurada em função de seus interesses políticos, econômicos e editoriais, interrogamos os dispositivos midiáticos como coprodutores de sentidos sociais e, em especial, como dispositivo constituinte da cultura contemporânea do risco. Extrato das questões abordadas em tese de doutorado recém-concluída (PPGCOM/ECO-UFRJ, junho de 2012), a discussão proposta aos colegas reunidos nesse Colóquio privilegia a historicidade das narrativas jornalísticas e da própria configuração dos discursos do risco, privilegiando pontos de cruzamento entre a saúde pública e o jornalismo. Assim, a partir dos três eixos problematizados na pesquisa – as operações que tecem as causas e responsabilidades sobre os eventos epidêmicos; as formas de expor o sofrimento e as mortes, em conexão com a concepção de justiça social que anima esses relatos; e os posicionamentos sociodiscursivos que o telejornal propõe para si e para o telespectador – selecionamos os resultados encontrados nas narrativas sobre a última grande epidemia, em 2008. Nesse ano, o encontro da lógica do risco com novos posicionamentos do telejornal, resultou em um tipo de politização singular do evento, no qual se destacam três características: o endereçamento dos telespectadores como vítimas virtuais; a desqualificação de políticos (e da política), das autoridades sanitárias; e a intensificação da indignação e da projeção, que se quer inconteste, do julgamento efetuado pelo JN. Em outras palavras, argumentamos que a idealização do poder da ação do Estado em evitar sofrimentos, no contexto do esvaziamento da ação política tal como pensada na modernidade, vem dando lugar à hipertrofia do julgamento midiático baseado no cálculo de risco. Se a definição e avaliação das políticas de saúde passam na atualidade, de forma crescente e multifacetada, pelo crivo do trabalho midiático, acreditamos que pensar como se dá hoje a interdependência entre políticas públicas e mídia pode ter espaço no necessário diálogo entre pesquisadores dos campos da saúde e da comunicação.