CISECO - Centro Internacional de Semiótica e Comunicação

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Publicada a proposta temática da décima edição do Pentálogo

 

PENTÁLOGO X

Comunicação, Aprendizagens e Sentidos

(Difusão, Mediação, Interfaces, Bifurcações)

 O Centro Internacional de Semiótica e Comunicação – CISECO – na décima edição do seu Pentálogo anual – vai reunir especialistas de várias áreas de conhecimento em torno do tema “Comunicação, Aprendizagens e Sentidos: difusão, mediação, interfaces, bifurcações”, entre os dias 25 e 28 de novembro, no Hotel Albacora, em Japaratinga/AL.

A proposta temática do Pentálogo X considera as transformações ocasionadas pelas diferenças de acesso e de apropriação às tecnologias de comunicação e informação na sociedade atual, bem como as incidências de suas manifestações em práticas, ocasionando limitações nos contextos de aprendizagem e compartilhamentos de saberes. Tais possibilidades acontecem em ambiências sócio-técnicas permeadas por novas condições de produção, circulação e de apropriação de conhecimentos, com reflexos nas atividades técnico-comunicacionais e pedagógicas de diferentes práticas sociais, envolvendo diretamente instituições e atores sociais. Se outrora, o conceito de comunicação estava associado à noção de difusão suscitada pelos efeitos de transmissão de mensagens (Rogers, 1971), no cenário contemporâneo o surgimento da ambiência da midiatização enseja complexas transações interacionais cujos efeitos, em termos de produção de sentidos, são indeterminadas. Antes da emergência nas novas TICs os processos calcados em “transferência de signos” norteavam políticas de aprendizado e de acesso de conhecimentos em vários domínios – educação, saúde, associativismo, política, agricultura, religião, etc – segundo lógicas e processos metodológicos específicos.

A proposta do Pentálogo X inspira-se na análise das contribuições comunicacionais que vão além dos postulados difusionistas, na medida em que considera matrizes nas quais processos de aprendizado, de apropriação e de construção de conhecimento levam em conta a existência de novos e complexos circuitos interacionais entre instituições e os atores sociais. Referem-se a modelos comunicacionais que se inspiram na noção de semiótica aberta (Verón e Boutaud, 2007), enquanto vertente que vai além do conceito de ação comunicacional organizada. Além disso, ensejam a autonomia de emissores e receptores; diferenciações de lógicas entre sistemas sociais e sócio individuais; e complexificações nas interpenetrações de práticas sociais, apontando para efeitos de sentidos elaborados em situações cada vez mais complexas . De modo sucinto, comentamos os quatro conceitos que estão em relação direta com o tema do Pentálogo X.

Difusão/Transferência, conceito associado historicamente à “pragmática difusionista” concebida nos anos 1960, abrange a atividade comunicacional entre instituições e atores sociais segundo perspectiva de transferência de significados. Sua matriz comunicacional entende a comunicação como ato de difusão, e sua pedagogia transmissional como condição fundamental para que padrões de conhecimentos transferidos venham assegurar transformações em diferentes práticas (educação, comunicação, agricultura, direitos, artes, etc) da organização social. Estes fundamentos ignoram especificidades e diversidades de lógicas dos sujeitos e desconsideram a recepção como polo ativo. Podemos dizer que a ação comunicacional organizada introduz em sua” engenharia” certa atenuação, evocando uma possibilidade de atividade mediacional, por meio do fluxo de comunicação em dois tempos. Neste contexto, aparecem ainda outras formas lineares que fragilizam as potencialidades de mediações, como aquelas praticadas pelos vulgarizadores científicos, por exemplo. Os divulgadores da ciência pretendem ser o elo entre instituições e atores sociais, mediadores de saberes que visam, entre outros objetivos, a redução de complexidades nas interações entre instituições e sujeitos.

Mediação, esse conceito aparece equidistante das noções difusionistas e surge no marco de outras orientações, em divergência com a “episteme condutivista”, manifestando-se por meio de postulados sócio-antropológicas-comunicacionais (Martín-Barbero, 2015). Suas proposições valorizam conhecimentos elaborados em circuitos de diferentes saberes, no âmbito de práticas culturais de instituições e de atores sociais. Enfatizam a singularidade de elaborações simbólicas mais próximas ao mundo da vida dos indivíduos, equidistantes do ponto de vista da “ação social organizada”, mas em contato e em transações com outros processos sócio-culturais, inclusive os de natureza midiáticas. As mediações destacam heterogeneidades discursivas, favorecendo reconhecimento de produção de sentidos de natureza polifônica, além de possibilidades de aprendizagens que se efetivam na diversidade de práticas de leituras. Tais práticas possibilitariam, além do acesso das pessoas aos meios, uma vasta gama de circuitos de sentidos. Estes circuitos favoreceriam novas possibilidades de aprendizados e de conhecimentos, segundo dinâmica comunicacional centrada em intercambialidade de signos e não na unilateralidade de ações comunicacionais forjadas em pedagogias difusionistas. Trata-se de um avanço, necessário, mas talvez insuficiente para compreender a realidade em mutação.

Interfaces, conceito que aparece nos cenários da midiatização em processo (Verón, 2013) e desponta em um “ecossistema” de entrelaçamentos de práticas discursivas, ensejando novas possibilidades de interação social. Práticas de diverss naturezas geram trabalho significante que alia de modo complexo e relacional, a autopoiesis (Luhamnn, 2011) midiática, bem como marcas de narrativas de coenunciações, segundo interfaces e interpenetrações de “gramáticas” (midiáticas e sócio-individuais) (Veron, 2013) . Nestas condições, novas possibilidades de intercâmbios e de acoplamentos de práticas significantes favoreceriam novas formas de intercâmbios entre instituições e atores , segundo performances singulares na ambiência midiatizante, enquanto nova forma de ser no mundo (Gomes, 2017).

Circulação, conceito mais referido aos tempos atuais, dada a relevância dos processos midiáricos para além de matrizes dos “mass media” e de novas possibilidades de produção de aprendizado e de compartilhamento de saberes, mediante complexas interações e bifurcações (Prigogine, 2009) de práticas sociais ensejadas por nova dinâmica de circulação de discursos. As mídias são mais que referências intermediárias incontornáveis da gestão do social (Verón, 1980), uma vez que as novas formas de existência dos processos comunicacionais passam a se misturar com várias dinâmicas do funcionamento social. Resulta que, nestas condições, as relações entre meios, instituições e atores sociais se fazem de modo complexo, não comportando relações lineares. Dinâmicas de campos sociais deslocam-se para circuitos bifurcantes, levando adiante suas fronteiras estruturais. Práticas sociais funcionam valendo-se intensamente de postulados digitais para além das lógicas midiáticas no sentido tradicional. Estruturas mediadoras desaparecem ou se defrontam com o esmaecimento de suas pedagogias. Processos de aprendizados e de produção/circulação de conhecimentos resultam de novos contextos comunicacionais e vínculos de várias naturezas se tecem em uma nova ambiência sócio-técnica, materializada e dinamizada pela internet. A atividade interacional desloca a problemática das condições de produção do aprendizado e dos conhecimentos de matrizes mais distantes, como as de difusão, mediação e intermediação, para as matrizes de interfaces, circulação e bifurcações de sentidos.

Estes, entre outros conceitos, devem orientar as discussões do Pentálogo X, para entender melhor como os sentidos são tecidos e engendrados no emaranhado de relações que se organizam na ambiência da midiatização. Sabemos dos desafios que representa analisar a complexidade das formas dinâmicas de aprendizagens e conhecimentos. Avançamos, é certo, na descrição da “arquitetura comunicacional” da midiatização, mas ainda são incipientes os níveis de compreensão sobre questões que envolvem o tema central do Pentálogo X.

Para avançar um pouco mais, nos encontraremos mais uma vez nas paragens da midiatização, na ambiência e nos cenários e horizontes do mar cálido de Japaratinga. Trata-se de um reencontro de estudiosos, também de renovação de amizades e de compartilhamento de experiências. Para tanto, vamos pensar juntos esta problemática em torno de mesas abertas de discussão, provocadas pelas conferências, relatos e debates.

Referências

GOMES, Pedro Gilberto. Dos meios à midiatização: um conceito em evolução, Vol. 1. São Leopoldo, RS: Ed. UNISINOS, 2017.

LUHMANN, Niklas. Introdução à teoria dos sistemas. Petrópolis: Vozes, 2011.

MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2015.

PRIGOGINE, Ilya. Ciência, razão e paixão (Organização Edgard de Assis Carvalho, Maria da Conceição de Almeida). São Paulo: Editora Livraria da Física, 2009.

ROGERS, Everett M. Diffusion of Innovations (3ª ed). Nova York: The Free Press, 1971.

VERÓN, Eliseo. La Semiosis Social 2: ideas, momentos, interpretantes. Buenos Aires: Paidós, 2013.

VERÓN, Eliseo e BOUTAUD, Jean-Jacques. Semiotique ouverte: itinéraires sémiotiques en communication. Paris: Lavoisier, 2007.

 

 

 

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