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Entrevista com Natalia Raimondo Anselmino: Desarticulação da notícia com a transposição para as redes sociais

Natalia Raimondo Anselmino é doutora em Comunicação pela Universidade Nacional de Rosário (UNR) e pesquisadora do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (CONICET) da Argentina. Pertence ao comitê acadêmico do Centro de Pesquisas em Midiatizações da UNR, instituição onde também atua como professora na cadeira de Linguagens III da Licenciatura em Comunicação. Suas investigações se inscrevem no campo da semiótica dos meios de comunicação, tendo a imprensa e as redes sociais na Internet como objetos de estudo. 

Ela é uma das conferencistas do Pentálogo VII do CISECO, que será realizado entre 25 e 29 de setembro, em Japaratinga, Alagoas. No evento, Natalia apresenta o trabalho “Imprensa online e redes sociais na Internet: notas sobre a circulação dos discursos midiáticos contemporâneos”, no qual debate as alterações advindas da presença de jornais tradicionais da Argentina (Clarín e La Nación) em perfis de redes sociais. Por e-mail, ela concedeu esta breve entrevista que ajuda a situar melhor o que ela apresentará no evento. Confira:

O que afirma quando diz que a notícia deixou de ser uma “unidade-produto” estável para converter-se em um texto “desarticulado” ou “desarticulável”?

Parece-me interessante analisar quais são os efeitos de sentido que se produzem ao desprender-se a notícia do corpo do periódico e circulá-la interferida por outros discursos, algo que é cada vez mais habitual via plataformas conectivas como as fornecidas por Facebook, Twitter ou WhatsApp. Na atualidade, pode-se dizer que a notícia deixou de ser essa unidade-produto estável disposta no contexto de uma determinada seção do jornal diário, tal como o conhecíamos em sua versão impressa, para se tornar um texto que pode sofrer interferência materialmente pelos leitores, de uma forma que não era possível antes. Quando tínhamos apenas jornais impressos, as notícias eram, necessariamente, consumidas no espaço estabelecido do exemplar do periódico, ou seja, a publicação de um determinado meio em uma seção. Depois, com a chegada da imprensa on-line começa a desaparecer cada vez mais a circunscrição por seções e, por conseguinte, a se permitir a interpolação dos comentários ou outras ações dos leitores (que agora também são usuários e produzem conteúdos) no discurso informativo. Propicia-se, assim, uma desarticulação (e descontextualização e re-contextualização) da notícia que se evidencia mais ainda a partir dos sites dos meios permitem a seu público compartilhar seu conteúdo através das redes sociais na Internet. Há algo da midiatização da notícia que muda significativamente.

E o que podemos entender da “re-semantização”? Quais as mudanças ocasionadas por esse processo?

A desarticulação da notícia do corpo geral do jornal supõe, como assinalei, uma re-contextualização que volta a por em funcionamento o processo de semantização. De acordo com Eliseo Verón, em um dos seus primeiros textos sobre análise da discursividade midiatizada, todo processo de semantização supõe a combinação de dois passos: por um lado, a seleção dentro de um repertório de unidades disponíveis e, por outro lado, combinação entre as unidades selecionadas. E tanto as unidades disponíveis como combinações possíveis estão alterando à medida que circula a notícia. Ou seja, como resultado desta re-semantização discursos da imprensa, se estabelecem novas relações de co-presença e contiguidade entre os elementos que compõem originalmente uma notícia.

O que você pode antecipar das pesquisas junto aos dois jornais (Clarín e La Nación) sobre conteúdo e estratégias discursivas dos mesmos?

No geral, ao estudar as postagens mediante as quais ambos diários publicam suas notícias no Facebook se pode notar a proliferação de enunciados que propõem um tipo de relação modal diferente daquela propiciada pelo contrato de leitura do mesmo em seu site. Algo disso pode ser evidenciado no emprego constante de interpelações. Interessa-me analisar, neste caso, em que medida isso supõe uma mudança, pelo menos em parte, nas operações de enquadre direcionam a manchete. Em suas contas oficiais no Facebook, tanto Clarín quanto La Nación empregam estratégias que tendem a "imitar" o contato interpessoal, embora no segundo meio se observa particularmente outro tipo de estratégia que se orienta, bem mais, à conformação de um ‘nós’ pouco habitual no tipo de discurso que estamos analisando, um ‘nós’ no qual os co-enunciadores pareciam estar ocupando melhor o lugar de Ego e não de Alter Ego. Seriam processos de identificação ligados ao estabelecimento de laços (de certo modo) comunitários? Laços comunitários também se supõem em certos posts nos quais o procedimento retórico se concentra em estabelecer certa homologia entre a temporalidade do meio e a de seu público, como acontece nos textos que se referem aos informes meteorológicos ou em certas efemérides.

Entre as publicações Natalia, destaca-se o livro “La prensa online y su público" [A imprensa on-line e seu público], um estudo dos espaços de intervenção e participação do leitor nos jornais Clarín e La Nacion, publicado em 2012 por Teseo Editorial.

 

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