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Entrevista - Ivone de Lourdes Oliveira: “O rompimento da barragem de Fundão fez emergir uma prática discursiva que rompeu com a linearidade do discurso em torno da indústria da mineração”

 

O rompimento da barragem do Fundão é considerado uma das maiores tragédias ambientais do Brasil. O ocorrido foi escolhido como contexto pela pesquisadora Ivone de Lourdes Oliveira para a realização do trabalho “Ruptura da linearidade dos sentidos em um acontecimento discursivo: a tragédia em Mariana – Minas Gerais”, que ela apresentará no Pentálogo VII do CISECO, que será realizado entre 25 e 29 de setembro, em Japaratinga, Alagoas. No trabalho, ela faz uma análise das práticas discursivas dos atores sociais envolvidos na tragédia. 

Ivone é pós-doutora pela Université de Toulouse - Paul Sabatier, da França. Também é professora adjunta da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), onde leciona no mestrado de comunicação social "Interações Midiáticas" e lidera o grupo de pesquisa "Comunicação no contexto organizacional: aspectos teórico-conceituais. Confira, a seguir, a entrevista que a pesquisadora nos concedeu a respeito do seu trabalho:

De onde partiu a iniciativa de analisar as práticas discursivas na época do rompimento da barragem do Fundão?

O interesse pelo rompimento da barragem do Fundão se deve ao fato de ter sido considerada uma das maiores tragédias ambientais do Brasil. Além das vítimas (19), o rompimento da barragem alterou sobremaneira a prática social das comunidades afetadas, instituindo uma outra ordem no discurso e na rotina dessas comunidades. Portanto, acreditamos que essa perspectiva, a análise das práticas discursivas que pautaram o rompimento da barragem, é enriquecedora e capaz de revelar um complexo processo de disputa de sentidos, pactos, sensos e dissensos presentes nas reverberações dessa tragédia nos vários grupos de interlocução. É bom salientar que marcou profundamente a narrativa sobre segurança e sustentabilidade em torno dos projetos de mineração no país.

Como foi o processo de análise, no que se refere à diversidade de participantes do mesmo?

Foi um processo bastante rico e inspirador e que foi se revelando a partir da perspectiva dos atores sociais envolvidos: a comunidade atingida, a empresa, a mídia, as consultorias, o governo e a justiça. O rompimento da barragem promoveu fortes rupturas no cotidiano desses atores sociais, ressaltando as contradições em decorrência dos múltiplos valores que circulavam sob um clima de tensão e conflito. A análise se deu a partir de visitas à área impactada, acompanhamento e leitura sistemática das publicações sobre o acontecimento na mídia e do posicionamento institucional da empresa nas mídias sociais digitais.

Por que é possível considerar o acontecimento trágico de Mariana como “um acontecimento discursivo”? 

No momento do acontecimento, os sentidos emergem e rompem com a linearidade discursiva da empresa e dos atores sociais envolvidos. Constituiu-se aí o acontecimento discursivo. O rompimento da barragem de Fundão rompeu a cena, instaurou novos sentidos, constituindo-se num processo de significação que possibilitou a configuração do acontecimento real em acontecimento discursivo. Pode-se dizer que a circulação discursiva desestabilizou o que estava posto, tornando-se um vir a ser. Os atores sociais envolvidos recorreram a estratégias discursivas presentes nas dinâmicas de produção de sentidos, com movimentos marcados por intenções, para fazer prevalecer as lógicas e gramáticas de cada um, consolidadas no mundo vivido.

Quais são as principais diferenças na prática discursiva dos atores sociais?

A falta de homogeneidade no quadro de valores fez emergir estratégias discursivas, construídas para buscar a posição de legitimação e reconhecimento por outros sujeitos. E cada ator social envolvido no processo de construção de disputa de sentidos carregou consigo um repertório que se traduziu no discurso apresentado. Igualmente importante é lembrar Fausto Neto (2013, p.55), para quem a “circulação desponta como um território que se transforma em lugares de embates de várias ordens, produzidos por campos e atores sociais”. Notamos que o discurso apresentado pela empresa foi marcado pela prepotência e pelo não reconhecimento de sua parcela de responsabilidade; já o discurso da comunidade acentuava o desamparo e a perda. No meio desse acontecimento discursivo a Mídia instigava as contraposições entre os atores sociais (empresa, comunidade, poder público, Ongs, organismos internacionais e outros).

Qual a importância de fazer uma análise como essa, socialmente falando?

Além de ser considerado a maior tragédia ambiental do Brasil, o rompimento da barragem de Fundão fez emergir, por conta de sua dramática extensão, uma prática discursiva que rompeu com a linearidade do discurso em torno da indústria da mineração, especialmente em Minas Gerais, onde a produção de minério é o principal produto da pauta de exportação do Brasil. Em linha com crenças e interesse de cada ator social envolvido, foi-se revelando valores diversos sobre o trágico rompimento, movimento esse que nos permitiu identificar o processo de construção de disputa de sentidos presente na circulação discursiva. O lugar de fala do ator social foi uma potente chave de leitura para a compreensão do modo como se configuraram os processos comunicacionais e os novos dizeres possíveis, a partir do acontecimento.

 

 

 

 

 

 

 

 

Foto: Antonio Cruz (Agência Brasil - Arquivo)

 

Ivone é coautora do livro "O que é comunicação estratégica nas organizações?" (2007) e co-organizadora das obras "Interfaces e tendências da comunicação no contexto das organizações" (2008); Propostas Conceituais para a Comunicação no Contexto Organizacional (2012); Redes Sociais, Comunicação, Organizações (2012); e Discurso, Comunicação, Organização (2013).

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