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Entrevista com Mohammed ElHajji: ‘’As TICs compõem hoje a peça chave da empreitada migratória”

 

Palestrante no Pentálogo 8 do Ciseco, que será realizado em setembro em Japaratinga, o pesquisador Mohammed ElHajji é professor da Escola de Comunicação da UFRJ e dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (POS-ECO) e Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social (EICOS). Sua área de interesse é focada na questão migratória transnacional, diaspórica e intercultural: identidade, cultura, etnicidade e alteridade. No evento, ele apresenta o trabalho ‘’Migrações transnacionais e o papel das TICs na formação de identidades diaspóricas”.

Em entrevista, Mohammed ElHajji contextualiza sua linha de pesquisa, explicando as atribuições das tecnologias da informação e comunicação (chamadas TICs) na construção da identidade de uma comunidade em um contexto de migração transnacional.

 

De que forma as TICs influenciam na formação de identidades diaspóricas?

A mídia, em geral, é um vetor central nos processos de produção de subjetividade e de construção de identidades; tanto em termos imaginários e simbólicos como narrativos e discursivos. E, antes das mídias modernas, a imprensa e a literatura, ou até a mitologia, sempre foram decisivas para a formação das identidades individuais e coletivas. Karl Deutsch ou Benedict Anderson, por exemplo, usam a noção de “nacionalismo editorial” para explicar o papel da imprensa e do romance na formação das identidades nacionais. “Romance”, aliás, antes de ser um gênero literário, é um vernáculo – uma língua regional ou nacional. O que reflete essa contiguidade entre discurso / narrativas e identidade, dicursividade e subjetividade.     

Tratando-se das TICs, não há dúvida que são mais de que um fator na formação das atuais identidades diaspóricas. São a principal instância de enunciação das identidades diaspóricas; seu molde discursivo e narrativo. Há até um paralelo a ser feito entre a forma deflagrada das TICs, em seus níveis tecnológicos e discursivos, e a natureza desterritorializada das identidades contemporâneas em geral e diaspóricas em particular. Os principais estudos das diásporas oriundas das atuais migrações transnacionais indicam que as TICs constituem, de um lado, um estímulo para as migrações e um precioso auxílio para a efetivação da empreitada. Mas também são, por outro lado, um laço simbólico indefectível com a pátria e cultura de origem. Ou seja, as mesmas TICs que levam o sujeito migrante para o país de acolhimento são, ao mesmo tempo, um dispositivo discursivo que impede a este mesmo migrante de se desfazer por completo da estrutura simbólica (cultural, linguística, religiosa, étnica, etc.) que o liga às suas raízes e terra de origem. 

Pode-se dizer que as experiências proporcionadas pelas TICs influenciaram na quantidade de migrações transnacionais?

Conceitualmente, as TICs não podem ser dissociadas do princípio de mobilidade humana na contemporaneidade em geral. Não são apenas tecnologias móveis, são a expressão, por excelência, da mobilidade enquanto valor social de ordem ética e estética. As mesmas constituem a interface tecno-simbólica que conecta as duas faces do fenómeno de mobilidade: os fluxos humanos e os fluxos midiáticos. Que o sujeito se deixe transportar espacialmente ou simbolicamente, num caso como no outro, os efeitos subjetivos e existenciais são comparáveis em termos de desterritorialização e produção de identidades diaspóricas. 

No caso específico das migrações transnacionais, não há dúvida que o uso das TICs não apenas tornou os deslocamentos entre países e regiões mais práticos e factíveis, mas se pode até afirmar que as elas encarnaram o fenômeno migratório atual. Desde a escolha do país de destino até a busca por contatos locais no ponto de chegada, passando pela definição das rotas a seguir e os meios a tomar, toda a estratégia migratória (que se trate de migrações laborais, de estudo ou refúgio) é construída em função delas. Sem esquecer que as TICs se configuraram em redes virtuais transnacionais abrangentes que se sobrepuseram às redes sociais humanas e as envolveram; de modo que não é mais fácil saber onde acaba a dimensão simbólica (os fluxos midiáticos) e onde começa a dimensão material (os fluxos humanos) do fenómeno migratório contemporâneo.

Com as TICS, os valores culturais estão ameaçados? Pode-se dizer que as TICs intensificaram as chamadas apropriações culturais?

No meu entendimento, há certo exagero quando se fala em cultura e identidade na atualidade. À rigor, não existe “cultura” ou “identidade” na forma substantiva – algo inato, imutável e definitivo. O que existe são “práticas culturais” e “identificações” ou “expressões identitárias”, continuamente reformuladas, enriquecidas e atualizadas. O problema não seria, portanto, alguma forma de perda de identidade ou valores culturais, mas sim a dificuldade em elaborar esquemas mentais e adotar atitudes subjetivas capazes de reintegrar a diferença imediata e superficial no fundo humano milenar comum. Penso que isto seja consequência da aceleração dos meios e processos de comunicação e não do princípio de comunicação em si – afinal, os povos e culturas sempre conviveram, dialogaram e trocaram entre si. Que seja em tempos de guerra ou de paz, os empréstimos culturais sempre constituíram a dinâmica comunicativa central que impulsa a História da Humanidade. 

Nesse sentido, as TICs, enquanto aparato tecno-simbólico integrante do processo geral de globalização, podem ser (e, de fato, são) responsáveis tanto pela aproximação de culturas e povos como pela disseminação de sentimentos de desconfiança e rejeição do Outro, e o desejo de fechamento sobre si. Não há dúvida que as TICs estimulam, intensificam e, principalmente, aceleram as trocas e empréstimos culturais. Como não se pode esquecer que as TICs agem no sentido de “encolhimento” do planeta e superação da dimensão espacial nas relações sociais e de produção. O futuro da Humanidade aponta, inexoravelmente, para uma sociedade planetária cada vez mais hibridizada e miscigenada. Só não se pode apostar, pelo menos em curto prazo, que o processo será pacífico e harmonioso. Principalmente quando se considera a defasagem entre o tempo memorial lento da espécie, dos povos e das culturas, e a temporalidade acelerada das TICs.      

Quais os principais benefícios trazidos pelas TICs no contexto de migrações?

As TICs compõem hoje a peça chave da empreitada migratória. É através delas que o candidato à migração (em suas vertentes laboral, de estudo ou refúgio) coleta e organiza as informações necessárias para o projeto e execução da “travessia”. Como são as mesmas TICs que vão lhe servir de meio e referência para estabelecer-se no país de destino, procurar seus conterrâneos, integrar-se às redes sociais locais e transnacionais de imigrantes, e manter o contato com o país e cultura de origem.

Mas, além dessas funcionalidades instrumentais, de certo importantes, como a busca de emprego, moradia, etc., as pesquisas indicam que as TICs também têm um papel fundamental na organização social dos imigrantes e sua luta pela cidadania plena. Por um lado, é por meio das TICs configuradas em redes sociais que os migrantes se informam sobre seus direitos, se mobilizam e formulam suas reivindicações. Por outro lado, as TICs são usadas como recurso midiático para compensar o déficit de visibilidade e representação social e política que sempre afetou e continua afetando a condição migratória.   

Aliás, não é por acaso que as pesquisas relativas à questão nunca deixam de destacar a fenomenal disseminação das TICs dentre a população migrante, sua reapropriação de modo bastante criativo e inovador, a banalização de seus usos e a ressignificação de suas funcionalidades. Muitas vezes, o público geral fica apreensivo com os valores materiais investidos pelos migrantes nas TICs (telefonia móvel e internet em especial). Mas, o que eles não sabem é que esses aparatos são indispensáveis e até vitais para a sobrevivência do migrante.   

Na sua opinião, qual a importância social de uma pesquisa nesse tema?

Não há dúvida quanto à importância e atualidade da questão migratória (em si) no mundo e no Brasil. São mais de 260 milhões de imigrantes no mundo. E quase 70 milhões de refugiados ou deslocados. É verdade que no Brasil, os números são mais modestos. Menos de 10.000 refugiados e menos de 2 milhões de imigrantes. Ou seja, ainda não chegamos nem a 1% do total da população – contra quase 5% na Argentina por exemplo. Mas, mesmo assim, a retomada das imigrações ao Brasil a partir dos anos 2000 teve um impacto significativo no imaginário social nacional. Observou-se um aumento impressionante dos crimes de racismo e xenofobia. Como também se verificou uma mobilização extraordinária da população e da sociedade civil contra a discriminação e em prol dos imigrantes e refugiados. Como se a presença de estrangeiros no país servisse de catalizador para evidenciar o melhor e o pior de nossa sociedade. 

Aliás, para mim, o mais importante é que a temática migratória funciona enquanto “macroscópio” epistemológico que destaca e amplia as nuances mais súteis do contexto histórico contemporâneo; principalmente em que diz respeito às questões de alteridade, interculturalidade e mudanças sociais. Ou seja, ao estudar as migrações acabamos entendendo melhor a nós mesmo e a sociedade na qual vivemos. Enfim, vale lembrar que os estudos migratórios no Brasil ainda são bastante incipientes, e concentrados em poucas disciplinas. Temos poucos estudiosos, ao contrário da Argentina, México, Estados-Unidos, Canadá e Europa, onde a temática migratória é profundamente consolidada e seu estudo é transversal a todas as áreas de conhecimento: desde as ciências sociais, econômicas e jurídicas até as artes, os estudos de gênero, etc.

Foto: Divulgação

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