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Entrevista – Manuel Libenson: ‘Mutações dos encontros íntimos a partir de aplicativos de celular’

O pesquisador Manuel Libenson é doutor em línguística e mestre em Análise do Discurso  pela Universidade de Buenos Aires, além de ser licenciado em Relações Públicas e ator. Trabalha como pesquisador, professor e capacitador em temas de Semântica e Pragmática, Análise do Discurso, Teoria da Argumentação e Oratória em diversas  instituições, tanto em cursos de graduação e pós-graduação (Universidade de Buenos Aires - Universidade de San Andrés - Universidade Nacional Artes - Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas). No Pentálogo, ele apresenta o trabalho “Circulación discursiva y transformación semiótica de los procesos de sexualización de la sociedad. Un análisis enunciativo de las apps Tinder y Grindr”.

Libenson trabalha em duas áreas de pesquisa: investiga a dimensão linguístico-discursiva envolvida na estruturação dos intercâmbios econômicos, com particular interesse nas maneiras em que os processos de circulação discursiva desencadeiam diferentes posicionamentos subjetivos frente a essa instância relacional. Nesta linha de investigação se insere o trabalho que apresenta no próximo Pentálogo. Por outro lado, trabalha em outra linha de investigação, ancorada no domínio da semântica e da pragmática, em que trabalha no estudo polifónico-argumentativo da voz de SE (ou seja, SE diz, SE sabe, SE rumora, etc.) na língua espanhola. Confira a entrevista concedida por e-mail em que o pesquisador introduz o que vai apresentar no Pentálogo do Ciseco:

Para o artigo, apresenta o tema das mutações semióticas nos encontros íntimos e/ou sexuais. Há desafios em apresentar o tema academicamente?

Desde já, creio que é um desafio e até uma obrigação falar desses temas nos âmbitos acadêmicos nos quais estudamos as tramas discursivas que atingem e configuram os diferentes modos em que se podem desencadear relações sociais. Tal como já foi mostrado por  Foucault, a representação social da sexualidade e das subjetividades que são configuradas  sobre este modo de vinculação se encontram estruturadas e mediadas por tramas discursivas e dispositivos de contato historicamente constituídos.

Com o surgimento  dos aplicativos de celular destinados a permitir a ocorrência de encontro íntimo entre sujeitos sexuais,  podem-se notar transformações semióticas em várias dimensões de contato, que operam tanto sobre a construção das qualidades de um encontro íntimo como das posições subjetivas que são ativadas (tempo de encontro, o espaço de contato, o tipo de corpo esperado, etc). Creio que o desafio para a semiótica é mostrar até que ponto a única via de acesso à constituição de coletivos frente ao encontro sexual é de natureza eminentemente natureza discursiva.

Em outras palavras, e tal como buscarei argumentar em minha apresentação, o discurso apresentativo dos atores que se exibem nesses aplicativos é a única via de acessoa aos pontos de vista coletivos que organizam perspectivas sociais em relação ao sexo, os relacionamentos amorosos, o que significa uma experiência de entretenimento e os estilos de vida associados. Vou me deter na exposição sobre esse ponto específico, isto é, como se configuram posições supraindividuais frente ao encontro sexual tanto a partir de operações discursivas nas quais  o ator subscreve a certas representações coletivas ou porque as rechaça aos moldes de mecanismos de esquiva.

Como apontado no resumo, as relações sexuais  e os encontros íntimos têm sido influenciados por transformações contemporâneas. Que características têm sido percebidas em suas pesquisas?

Os dispositivos de apresentação e contato dos sujeitos sexuais por meio do celular introduziram  transformações em vários níveis. Uma transformação bem evidente se demonstra nas mudanças que manifesta a natureza icônico-indicial do discursos apresentativo do ator. O corpo do ator agora é oferecido por meio de fragmentos fotográficos de diferentes tipos acompanhadas de textos escritos que, como uma promessa do que virá, partimentizam o assunto através de seus dons em uma gôndola em que se articulam oferta e demanda. Pode ser visto aqui como se torna público o discurso de apresentação de atores individuais, adicionando uma qualidade que era característica dos antigos meios de comunicação massivos, a exibição de uma “capa” com a promessa de que o "outro" poderia encontrar caso se entrasse em contato .

Por outra parte, há uma mudança também nos vetores de espaço-temporais que organizam o encontro. A busca do encontro agora é produzida por critérios de proximidade ou distância espacial entre os corpos. Esta proximidade ou distância tem consequências sobre a estrutura temporal do encontro, uma vez que os critérios de urgência ou dilatação do contato face-a-face guardam relação com a distância real entre os corpos sexuais. Ao contrário de outros momentos na história da midiatização, esses novos dispositivos obrigam que o sujeito se apresente frente a um outro abstrato, genérico, que não se sabe quem é. É por esta razão que se alerta para uma transformação nas operações linguísticas que se põem em jogo na hora de definir quem é um e o que busca de um encontro com outro. É particularmente interessante a presença de um grande número de discursos refutativos que procuram desqualificar ou anular todo aquele que o sujeito sexual rejeita (ou seja, não me escreva sem uma foto, se você quiser sexo, vá procurar outro), porque só então a partir da anulação se pode configurar uma posição reconhecível. Este ponto é fundamental, porque nos permite mostrar até que ponto, nesses dispositivos, a construção de uma narrativa autobiográfica que aprova ou rejeita pontos de vista de caráter supraindividual ou geral é a via de acesso à configuração dos coletivos que se perfilam frente ao encontro sexual.

Para a presença nas redes sociais digitais, os usuários construem "peronsas" (imagens elaboradas de si mesmos). De que forma se percebe isso nos aplicativos de encontros íntimos / sexuais que investiga? Que elementos são particulares desse tipo de aplicativo?

Estou interessado em particular no discurso de apresentação dos atores nesse tipo de aplicativo. O que é particular e novo desses discursos de apresentação é que incluem três tipos de componentes que interagem na estruturação da semiose que habilita o posterior  encontro íntimo: 1) Uma imagem do ator (cujo nível de exibição não pode ir além de um torso nu). A presença de imagem é opcional. Ter ou não a ter aciona diferentes tipos de efeito sobre o reconhecimento. 2) Uma breve texto escrito de natureza livre em que o ator se define de alguma forma e destaca seus dotes frente a outro abstrato (em que estão envolvidos recursos escritos e icônico, como os emoticons). 3) Um texto com diferentes parâmetros padronizados pelo aplicativo, que o ator pode completar ou não. (Há indicadores de complexificação física, altura, enfermidades tipo  HIV, tribos ou grupos a que pertence, estado civil, etc...).

 

Manuel Libenson já publicou mais de vinte trabalhos em revistas especializadas pertencentes aos campos da semiótica, da retórica e de análise do discurso, e participou como conferencista  em congressos internacionais realizados em  Argentina, Estados Unidos, Irlanda, Inglaterra, Suécia, Alemanha, Bélgica e Brasil .

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