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Entrevista Mario Carlón: A circulação hipermidiática na sociedade atual

 

Docente na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires (UBA), Mario Carlón será o palestrante na conferência principal do Pentálogo 8 do CISECO. Ele é professor titular na cadeira de Semiótica de Redes nas ciências da comunicação e apresenta a conferência principal do evento, intitulada: “La circulación contemporánea: de las redes a los medios masivos y de los medios masivos a las redes” [A circulação contemporânea: das redes aos meios massivos e dos meios massivos às redes].

A seguir, pode ser conferida a entrevista concedida por e-mail, na qual ele situa a apresentação no espectro das pesquisas que já realiza, destaca o papel do Ciseco e dos pesquisadores na construção de reflexões sobre a sociedade midiatizada e sobre o conceito de circulação, entre outros assuntos. Carlón também é diretor do projeto de pesquisa Ubacyt “O contemporâneo na política, nas artes e na mídia” e pesquisador no Instituto Gino Germani, da UBA.

>>>>>>>>>> Confira a versão em espanhol<<<<<<<<<

Inicialmente, poderia indicar como o tema da conferência se enquadra na pesquisa e nos projetos que já desenvolve academicamente?

Esse é meu principal tema de pesquisa desde 2014, quando apresentei uma análise detalhada da circulação de um caso, “Chicas Bondi”, no Pentálogo do Ciseco. O interessante do caso é que o enunciador era desconhecido, anônimo, amador, e que gerou um projeto fotográfico que emergiu "de baixo", das redes sociais, e alcançou o reconhecimento dos meios massivos, que dedicaram ao tema notas em revistas e suplementos. No caminho até o reconhecimento foi gerado um coletivo de seguidores. É o caso que eu escolhi estudar, porque era controverso, mas eu poderia ter escolhido outros. O que me interessava era entender essa nova forma de circulação, tão diferente da era dos meios massivos, em que não apenas as instituições poderiam gerar coletivos. Em 2015, avancei tratando de realizar uma formalização, inspirando-me nos gráficos sobre circulação de Eliseo Verón. Isso coincidiu com o momento em que passei a ocupar a cadeira de Semiótica no curso de Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires. E começamos com a equipe da cadeira a investigar novos casos de circulação com base nesse dispositivo analítico. Discursos produzidos por enunciadores na rede, emergentes. Estudamos diferentes tipos de casos, de YouTubers a movimentos sociais. Por outro lado, integramos essas investigações com o Projeto de Pesquisa Ubacyt, o qual dirijo e que se chama "Lo contemporáneo en la política, el arte y los medios" [O contemporâneo na política, na arte e na mídia], no Instituto Gino Germani da Faculdade de Ciências Sociais. Em ambos os espaços acadêmicos participam Damián Fraticelli, Ana Slimovich e Rocío Rovner. Também participam do projeto Ubacyt Lucia Abuchdid Fernández e Nadia Koziner.

O que entende quando aponta que a sociedade se tornou hipermidiática? Quais são as características específicas deste modelo?

A tese é que a passagem de uma sociedade midiática para uma sociedade midiatizada se caracteriza, como observou Verón na década de oitenta, a passagem da modernidade para a pós-modernidade. A mudança que ele identificou é a mudança de papel dos meios massivos na pós-modernidade. Os meios deixaram de atuar com uma lógica da representação para passar a uma lógica da produção de sentido. Objetivamente, a mudança que estamos enfrentando hoje é maior, se considerarmos que surgiu um novo sistema de midiatização, baseado nas redes telefônicas e na internet. Uma sociedade hipermidiatizada é aquela que não possui um, mas dois sistemas midiáticos. Em uma sociedade hipermidiatizada, os sentidos circulam das redes para meios massivos e dos meios massivos para as redes constantemente. Não aconteceu no início, mas desde alguns anos se tornou habitual. E, através dessa circulação, a sociedade se transforma a si mesma. É por isso que estamos falando de uma circulação hipermidiática e de uma sociedade hipermidiatizada.

Nesse sentido, e já se antecipando às inferências da conferência, como a nova circulação transforma nossa sociedade e nossa cultura?

Sobre a sociedade, não é difícil entender a transformação que estamos vivendo se considerarmos que hoje praticamente todas as instituições, os coletivos e os indivíduos estamos midiatizados, temos presença nas redes. Não apenas como consumidores, mas como produtores de conteúdo. Desse fato se deriva que constantemente se estão criando, a partir da midiatização, novos contextos interpretativos sobre os atores sociais em sua vida cotidiana não-midiatizada. Por exemplo: hoje se "googleiam" e se consultam as páginas do Facebook das pessoas antes de conhecê-las, para saber quem são, o que elas pensam. E o que se lê e se vê afeta o contato face a face, não midiatizado.

Como enfrenta o estudo empírico da circulação em sua pesquisa? Você traz algum objeto empírico específico para a apresentação no Pentálogo?

No ano passado, apresentei brevemente no Ciseco o dispositivo analítico e alguns casos que estávamos investigando. A análise que apresentei trabalhava principalmente sobre a dimensão diacrônica da circulação, a dimensão temporal. Construía uma linha de tempo desde a origem e diferenciava essas fases. Neste ano, aprofundarei esse foco e explicarei como abordo a análise de outra dimensão: a espacial, que determina como em cada fase vão se posicionando os diferentes enunciadores na arena midiática. Ao fazê-lo, tensionarei com algumas análises interessantes que estão sendo feitas em redes como o Twitter. Vou fornecer exemplos em que vou integrar a análise temporal com a análise espacial.

Finalmente, e de forma mais geral, como você avalia o estado atual da pesquisa de circulação no mundo, e especialmente na América Latina?

Exceto por análises culturalistas como as de Henry Jenkins e aqueles que trabalham em sua linha de pesquisa, que se concentram em um caso de circulação, das franquias aos fãs e depois de fãs a franquias (sempre nesta ordem), não vejo que se esteja privilegiando o tema na bibliografia internacional que conheço. Penso que a análise que se realiza há alguns anos na América Latina, onde essa questão cresceu, é muito importante. Eliseo Verón trabalhou o assunto em seu último livro, em 2013. Em 2012, publicamos em “Las políticas dos Internautas”, um livro que compilamos com Antonio Fausto Neto, um artigo de José Luiz Braga, que fala de circuitos mais do que de circulação, a partir de um paradigma diferente, mas entendo que com muitos contatos, sendo um texto relevante sobre o assunto. E deve-se considerar que a própria idéia do livro, “Las  políticas de los internautas”, mostrava a intenção de investigar as estratégias dos discursos que vêm "de baixo". Antonio Fausto Neto vem publicando, pelo menos desde 2010, trabalhos sobre o tema, desenvolvendo conceitos, como "zona de contato", muito importantes. Creio que Fausto Neto fez um ótimo trabalho, seja através de seus textos ou pela via institucional para instalar o tema.

Há algo mais que gostaria de acrescentar?

Sim, que, segundo minha opinião, o Simpósio do Ciseco do ano passado foi muito importante, com excelentes revisões, como a oferecida por Oscar Traversa, e com trabalhos muito interessantes como, por exemplo, os de Suzanne de Cheveigné, Manuel Libenson e Gaston Cingolani . Tenho expectativas muito positivas para o Pentágono deste ano, creio que é muito bom que continuemos com um tema semelhante neste ano, pois, devido à mudança na circulação, a cultura em que vivemos está mudando drasticamente e de forma radical, e porque entendo que estamos diante da oportunidade de fazer pelo menos duas contribuições importantes. Primeiro, para determinar aspectos básicos sobre como a midiatização atual é desenvolvida, o que está contribuindo de forma crucial para moldar a sociedade contemporânea. Em segundo lugar, sistematizar uma abordagem para estudar a circulação, uma tarefa cada vez mais essencial para o conjunto das ciências sociais.

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