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A circulação como metáfora produtiva para o estudo das práticas mediadas de resistência - uma entrevista com Bart Cammaerts

Bart Cammaerts é professor associado e diretor no programa de mestrado em Mídia e Comunicação da London School of Economics and Political Science - LSE, no Reino Unido.  Ex-presidente da seção de Comunicação e Democracia do ECREA e da seção de Comunicação, Tecnologia e Política do IAMCR, sua pesquisa atual centra-se na relação entre mídia, comunicação e resistência, com ênfase nas estratégias comunicativas de ativistas, representações de protesto, contraculturas alternativas e questões mais amplas relacionadas ao poder, participação e público. Entre seus livros mais recentes estão: Youth Participation in Democratic Life: Stories of Hope and Disillusion (com Michael Bruter, Shakuntala Banaji, Sarah Harrison e Nick Anstead, Palgrave MacMillan, 2015) e Mediation and Protest Movements (coorganizado por Alice Matoni and Patrick McCurdy, Intellect, 2013).

Nesta entrevista, concedida por email, ele fala de sua pesquisa e das principais ideias no seu livro a ser lançado, The Circulation of Anti-Austerity Protest (A Circulação do Protesto Antiausteridade). Cammaerts explica ainda como o conceito de Circulação – ligado ao conceito dialético de Mediação – pode contribuir para o estudo das práticas de resistência, especialmente nas mídias sociais.  

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O que podemos esperar do seu novo livro?

Meu próximo livro tem como título “A Circulação do Protesto Antiausteridade” e será publicado este ano pela Palgrave MacMillan. No livro eu apresento um quadro conceitual, chamado Circuito de Protesto, para teorizar e estudar as várias maneiras pelas quais os discursos e enquadramentos dos movimentos sociais circulam por uma sociedade. Eu defendo que essa circulação é cada vez mais mediada e conformada por aquilo que chamo de estrutura de oportunidade da mediação. Eu argumento que o Circuito de Protesto tem quatro momentos cruciais, 1) a produção dos discursos, formação e identidade coletiva do movimento, 2) um grupo de práticas de mediação de si (self-mediation) para divulgar e examinar os enquadramentos dos movimentos e para criar memória 3) as representações da mídia mainstream sobre o protesto e o movimento e 4) a recepção das práticas de mediação de si e das representações midiáticas pelas/os cidadãs/os não-ativistas. Eu estudei cada um desses movimentos no contexto do movimento antiausteridade no Reino Unido (Occupy, UK Uncut e protestos estudantis) usando análise de enquadramento, análise de conteúdo, pesquisa de tipo survey e grupos focais com não-ativistas.

Em termos do discurso do movimento, concluí que o movimento britânico antiausteridade não foi necessariamente um movimento radical, mas reformista. O movimento demanda uma política renovada de redistribuição por meio do aumento de impostos e maior regulação do estado, mas não tem como objetivo abolir o capitalismo nem advoga por uma revolução para derrubar os poderes, por assim dizer. O movimento também emprega um meme populista – o 1% – para implicar o máximo de pessoas contra a elite, o establishment.

Quanto às práticas midiáticas, podemos ver como a internet, as tecnologias móveis e as mídias sociais tiveram um papel fundamental para impelir os movimentos, para comunicar independentemente, para documentar a violência policial, assim como para a mobilização para a ação direta. A “velha” mídia, como rádio e meios impressos, também esteve presente. Entretanto, pela internet e pelas mídias alternativas, um movimento fala a uma audiência restrita e tende a pregar para o convertido.

As representações da mídia tradicional também importam. Certamente, o chamado paradigma do protesto esteve presente, mas também houve um grau de compreensão em relação à raiva e à frustração que deram origem ao movimento antiausteridade, mesmo nos veículos de direita. Ao mesmo tempo, o escárnio, a demonização e a representação de manifestantes como bons e ruins também puderam ser observados, especialmente quando as coisas se tornaram violentas ou disruptivas.

A pesquisa survey e os grupos focais com a população mostraram que, embora não muitas pessoas soubessem sobre o Occupy UK Uncut, ou sobre as organizações estudantis de protesto, houve um apoio considerável aos objetivos e metas do movimento. No entanto, quando se trata de atribuição de culpa as pessoas não acusam apenas o 1%, mas também os estratos mais pobres da sociedade; muitos consideram não só os banqueiros como o problema, mas também imigrantes e pobres, aqueles que recebem benefícios do governo britânico. Além disso, enquanto o apoio ao movimento é bastante alto, as pessoas não gostam dos transtornos e de algumas das táticas mais militantes que o movimento usa para contestar e protestar.

Então, eu acho que meus dados, sobretudo, dão alguma explicação sobre o motivo pelo qual o político de esquerda Jeremy Corbyn tornou-se tão popular; mas também fornece algumas indicações de porque alguém como Farage e o Brexit tornaram-se possíveis, e porque a direita populista conseguiu sequestrar o slogan “99% versus 1%”, ligando-o às ideias anti-imigração usando o medo como argumento.

Você tem pesquisado e publicado sobre a relação entre comunicação e resistência, especialmente sobre movimentos de protesto e ativismo. Como os conceitos de circuito e circulação contribuem para a compreensão desses fenômenos? Como você vê a relação entre circulação e poder? 

A circulação é uma metáfora produtiva, penso eu, porque implica um processo dinâmico, que pode ter resultados contraintuitivos e inesperados; não tem um ponto de partida nem de chegada, e evita ser determinista em termos de privilegiar um momento do circuito em detrimento de outro, ou um lado de uma dicotomia sobre o outro. Em termos de mídia, comunicação e resistência, a circulação se vincula bem à ideia de mediação como um conceito dialético que faz a ponte entre mídia mainstream e alternativa, lutas simbólicas e materiais, produção de significado e a sua recepção.

Resistência e circulação inevitavelmente invocam e implicam poder – como apontou Foucault, a resistência é o “outro termo nas relações de poder". Eu abordo o poder no sentido foucaultiano, o que significa que precisamos reconhecer uma interação complexa entre aspectos generativos e restritivos do poder, entre hegemonia e contra-hegemonia, entre estrutura e agência. Isto é especialmente relevante no contexto dos movimentos sociais, do dissenso, das controvérsias políticas e dos vários papéis que a mídia e a comunicação desempenham tanto a nível simbólico como também a nível material, tanto das tecnologias de comunicação social e de mídia e seus recursos / possibilidades (affordances) quanto das limitações que estas fornecem para a resistência. Este último ponto também tem um elemento de poder e resistência, em termos de tecnologias, regulação pelo estado, vigilância etc.

Este ano, o tema principal em discussão no Pentálogo do Ciseco é “Circulação Discursiva e Transformação da Sociedade”. Você acredita que o ativismo nas mídias sociais online pode transformar relações de poder nas sociedades contemporâneas?

Eu vou dar uma resposta acadêmica típica para isso: em algum nível, sim. Mas, fundamentalmente? Na minha opinião, não. Deixe-me explicar isso ainda mais. As mídias sociais oferecem recursos muito úteis aos ativistas em suas lutas. Nas minhas entrevistas com ativistas, a criação de uma conta no Twitter e de uma hashtag são muitas vezes entendidas como o início oficial de uma organização ou mobilização. No meu livro, eu mobilizo as Tecnologias Estóicas de Foucault da divulgação de si, exame e memória, como forma de estruturar essas affordances e práticas de mediação relacionadas. É uma plataforma que permite que os ativistas divulguem o desenho dos movimentos, circulem informações e se mobilizem para ações diretas com muita facilidade e com custos mínimos, potencialmente através do tempo e do espaço, aumentando a difusão e a influência desses movimentos (N.T.: o chamado spill-out). As mídias sociais também podem servir como uma forma imediata de coordenar ações diretas no local e organizar o movimento, permitindo comunicação em tempo real e comunicação interpessoal. Finalmente, elas possibilitam a gravação e o arquivamento de artefatos de protesto, como vídeos, fotos, permitindo representação de si e memória.

Assim como as técnicas de si em Foucault, as mídias sociais enquanto tecnologias de mediação de si têm que lidar com as tecnologias de dominação, limitando essas oportunidades e possibilidades. As mídias sociais podem facilmente se tornar um espaço de pouca liberdade, com o fechamento de perfis e contas, especialmente quando se trata de contestação antissistema. As pessoas também precisam se autosselecionar para receber informações do movimento, e isso geralmente diz respeito a um número muito limitado de pessoas que seguem ou curtem uma página de movimento social ou ação direta. Isso invoca problemas como bolhas de filtro e audiência restrita.

As tecnologias de mídia e comunicação em si não transformam relações de poder, pelo contrário, as relações de poder offline tendem a ser replicadas ou mesmo reforçadas online. São as pessoas que podem potencialmente mudar a distribuição de poder em uma sociedade, e as tecnologias de mídia e comunicação, como as redes sociais, podem desempenhar um papel modesto nesse processo, mas não é a tecnologia que muda as relações de poder. As manifestações da primavera árabe não foram revoluções do Twitter. No Egito, apenas 1% da população estava no Twitter à época. Os protestos aconteceram porque um número suficiente de pessoas disse: "Estou de saco cheio e não vou tolerar isso mais!”, como no filme Rede de Intrigas. (N.T.: fala do âncora enraivecido no filme de Sydney Lumet de 1976).

No texto Social media and activism (2015), você afirmou que “enquanto tecnologias em rede têm o potencial de reduzir certos custos e reduzir as barreiras para a participação, existem novas barreiras como a distribuição desigual do acesso e a necessidade de habilidades digitais específicas”. Como a distribuição do acesso à internet e às redes sociais interfere no aspecto transnacional dos movimentos sociais?

Algumas das barreiras eu já mencionei, mas o acesso certamente é também uma delas. Isso é com certeza altamente problemático no Sul global, especialmente porque as mídias sociais consomem volumes cada vez maiores de largura de banda devido ao seu conteúdo de vídeo e à capacidade de fazer ligações de áudio e vídeo via rede social. E, como sabemos, a largura de banda é cara e de distribuição desigual. Além disso, mesmo no Ocidente, a penetração das plataformas de redes sociais varia e nem todos estão nas redes sociais, nem todos as usam para procurar informações políticas ou para fazer política.

Lilie Chouliaraki (2010) escreveu que a mediação de si (e o seu suposto potencial de democratização) é um “processo profundamente ambivalente” especialmente por causa “de suas articulações discursivas entre política e mercado, cidadania expressiva e autenticidade consumidora, ativismo e terapia, solidariedade e narcisismo.”Em um contexto neoliberal, a mediação de si consegue escapar da apropriação e da comodificação?

Eu concordo com minha colega. As mídias sociais como plataforma, seus algoritmos, suas funções e seu uso estão intrinsecamente incorporados e são parte do projeto neoliberal e, portanto, as mídias sociais estão profundamente implicadas nas estruturas de poder que os ativistas visam a contestar e a resistir. Podemos e devemos nos perguntar se isso ainda deixa uma abertura para a fuga da hegemonia neoliberal e capitalista. Da perspectiva da teoria do discurso, uma hegemonia total é uma impossibilidade ontológica, mas, ao mesmo tempo, também precisamos reconhecer que o capitalismo e sua agenda neoliberal estão muito enraizados e conseguiram se naturalizar e se “desideologizar” – o estágio final do senso comum. O capitalismo conseguiu, de certa forma, se invisibilizar, enquanto todas as alternativas fazem tudo ao seu alcance para se visibilizar. O neoliberalismo tem sido tão bem sucedido nisso que a questão se tornou: em que medida ainda existe um exterior constitutivo ao capitalismo e ao neoliberalismo. Para colocar isso em termos políticos dentro do contexto brasileiro, pode-se argumentar que mesmo os 12 anos de governo do Partido dos Trabalhadores não alteraram fundamentalmente a lógica capitalista e neoliberal de como a sociedade brasileira opera, de como poder / terra / capital são distribuídos.

 

Referências

Cammaerts, B. (2015) Social media and activism. In: Mansell, Robin and Hwa, Peng, (eds.) The International Encyclopedia of Digital Communication and Society. The Wiley Blackwell-ICA International Encyclopedias of Communication series. Wiley-Blackwell, Oxford, UK, pp. 1027-1034. ISBN 9781118290743

Chouliaraki, L. (2010) Self-mediation: new media and citizenship, Critical Discourse Studies, 7:4, 227-232, DOI: 10.1080/17405904.2010.511824. 

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