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Entrevista com Sérgio Porto: a circulação de sentidos em uma sociedade tecnológica

 


Em parceria com Célia Mota, o pesquisador e professor-emérito da Universidade de Brasília (UnB) Sérgio Dayrell Porto apresenta o trabalho “O Filme ‘Um perfil para Dois’ e a sua circulação discursiva em uma sociedade tecnológica” durante o Colóquio Semiótica das Mídias do Pentálogo do CISECO. Nesta entrevista, ele fala da perspectiva atual de condução das pesquisas em semiótica e do trabalho que apresentará em Japaratinga, entre outros temas.

A divulgação da distribuição dos Grupos de Trabalhos (GTs) do Colóquio será divulgada em breve, reforçando que a data das apresentações já está definida para 27 de setembro.

Inicialmente, poderia nos informar como o trabalho que irá apresentar, em parceria com Célia Mota, se insere em sua trajetória de pesquisa?

 O livro maior de Martin Heidegger “Ser e Tempo” é um parâmetro para as pesquisas interpretativas do momento. O encontro inevitável dos seres-aí, com os seres para com os outros e com os seres para a morte marca o tempo de nossas vidas. Os nossos lugares já se descolaram de suas plataformas primeiras e vivem hoje em função dos 'aplicativos' da internet, uma das realidades da moda. Os ventos sopram, ninguém sabe de onde veem e para onde vão, já nos dizia a Bíblia. Os ventos modificam as nossas sensações térmicas e os furacões tropicais não respeitam nem as maiores cidades norte-americanas, Houston, no Texas, é um exemplo. No Brasil, da política desmoronada, a operação Lava-Jato tem força de derrubar presidentes. No campo interpretativo, a hermenêutica histórica caminha seguindo as trilhas do mesmo Heidegger, que fala da 'hermenêutica da facticidade' quando um ‘pro-jeto’ é sempre ‘pré-projeto’ do projeto seguinte, sempre mais avançado, supostamente mais preciso. O filme ' “Um perfil para dois”, ' de Stéephane Robelin, brinca com esse jogo do tempo.

Como a problemática da internet e circulação despertou seu interesse de pesquisa? Em que o objeto em questão (um filme que trata da sociedade tecnológica) chamou seu interesse de investigação?

Produção, circulação e consumo dos bens culturais, uma trajetória de marketing para se poder acompanhar a vida das formas simbólicas em nossa sociedade. E, de repente, a circulação de sentidos acaba por devorar as performances produtivas e receptivas. Um dos autores clássicos da Hermenêutica, Georges Gusdorf enfatiza que o papel da hermenêutica é fazer circular os sentidos, é desenraizar a rigidez daquelas interpretações estratificada e substituí-las por outras, certamente mais significativas. Paul Ricoeur fala que após a desmitificação de alguns sentidos o importante é recobri-los com novos ou outros sentidos mais pertinentes. Ele fala em 'recovering of meanings'. Quando os médicos falam para seus pacientes idosos que o resultado de seus exames estão até bem apara a idade deles, ele quer dizer que a saúde das pessoas vive hoje uma grande dinâmica. No filme, Pierre (Pierre Richard) é um viúvo aposentado que não sai de casa há mais de dois anos, e agora tem a chance de voltar a viver novamente com a ajuda da internet...

Como avalia o impacto desses novos circuitos de comunicação/deslocamento de informação e de discursos no contexto de internet? Em seu entendimento, o que desponta como específico desse contexto? 

Michel Pêcheux dizia que 'discurso é o efeito de sentidos entre interlocutores'. Se pensarmos semioticamente nas relações entre pacientes de planos de saúde com suas instituições fornecedoras desses próprios planos, esses contratos e relações são hoje marcadas por aquilo que eles chamam de 'token', que é muito mais do um 'cpf' ou um 'cnpj'. O 'token' abre a vida de um paciente somo se fosse um milagre, mostrando através de um número ou um pequeno signo ou ícone qual que é o milagre da vida de um paciente. Por sinal, os milagres de Jesus Cristo eram conhecidos como 'tokens' - sinais sagrados e milagrosos, sinais dotados de pragmática anunciadora. Assim, estes sinais especiais, que na gíria poderiam ser lembrados como toques..., aproximam instantaneamente os interlocutores, dando assim maior automaticidade à prática e à eficácia discursiva. Os planos de saúde que administram a saúde das pessoas, utilizando-se do recurso do 'token' passaram a compreender a prática discursiva da medicina, aproximando os sintomas e sinais dos pacientes aos diagnósticos médicos, e estes, por sua vez, buscam sempre o milagre da cura. No filme ' um perfil para dois', vidas com discursos diferentes acabam aproximando-se e até ousando a montagem de um perfil comum, na medida em um velho discípulo e um jovem professor de informática, revolucionando o sagrado conceito de 'formação discursiva' constante dos ensinamentos de Michel Foucault mostram que num site de relacionamento afetivo eles podem juntos satisfazer a mesma namorada, dividindo valores comuns. Ambiguidade que até pouco tempo só se permitiria ao discurso publicitário, mas agora com os avanços tecnológicos a 'interincompreensão-discursiva' de que nos fala Dominique Maingueneau acaba tornando- se mesmo a inter-compreensão de dois discursos afins. Afinal, ter uma namorada e conviver com ela, a linda jovem Flora, acaba agradando às três partes envolvidas, e assinalando que o amor é uma fonte de vida para todos.    

Quais os desafios para o trabalho de analista de discurso num contexto de produtos dispersos da Internet (muito além de textos verbais tradicionais)? O que modifica nas metodologias?

Os desafios metodológicos nunca deixaram de lado todos aqueles que não operam com a certeza da episteme matemática. Ainda mais se considerarmos que também os números fazem parte dessas águas dançantes em que se situam as coisas nelas mesmas acompanhadas de seus próprios discursos. Os números absolutos em medicina acabam dando lugar para os números relativos. A 'glicemia' de cada paciente acaba sendo relativizada pela curva glicêmica, pela glicemia pós-prandial, todos esses indicativos dando dimensão quantitativa da saúde física de uma pessoa. No entanto, quando os médicos pedem que para se fazer bem determinado exame é importante que se o compare com exames anteriores, mostra que até os números entraram no baldio terreno da ação das estatísticas corporais. VIVEMOS UM MUNDO DE INCERTEZAS, E OS NÚMEROS TAMBÉM COLABORAM PARA ISSO. Aristóteles mostrava que para além da metafísica existia um vasto mundo que ele chamava de ' fronesis ' que acabou vindo a dar lugar às ciências humanas, às ciências do comportamento, a todas as ciências não exatas. Muito mais tarde os alemães inspiradas pela filosofia romântica, isso a partir da época do pós-iluminismo, séculos 17 e 18, por exemplo, sentiram que se a razão podia tudo, a arte era capaz de enfrentá-la e assim de dizer muito mais coisa que até então estava aquém da presença efetiva das coisas nelas mesmas. A hermenêutica histórica e existencial de Heidegger, Gadamer e Ricoeur mostra que 'compreender' um fenômeno é mais forte e muito mais significativo do que interpretar, e que as coisas colocadas em círculos possibilitar ver o todo e que este cercado pelas partes se deixa ver melhor, naquilo que os mesmos alemães, a partir de Scheleirmacher, chamam de círculo hermenêutico da compreensão.  

Como avalia a importância do CISECO para o estudo e pesquisa semiológica no Brasil e na América Latina?

O CISECO - Centro Internacional de Semiótica e Comunicação, através de seus sete pentálogos já realizados - agora se encaminha para o oitavo, assim como através de seus Colóquios de Semiótica das Mídias - encaminhando-se agora para o sexto, vem revolucionando a questão da multiplicidade de sentidos que atingem as formas simbólicas nas quais a Comunicação está bastante envolvida. Eliseo Veron e Antonio Fausto Neto, os fundadores do CISECO, sempre estiveram atentos e tocados por aquilo que era a marca registrada das reflexões de Maurice Mouillaud, as formas que possibilitam sentidos, as formas que dão sentido aos aparatos dos meios de comunicação agindo na sociedade. De que 'forma' os meios agem, em que 'forma' se envolvem as ideologias? A semiótica, ou se preferirem a semi-ótica, ou se quisermos buscar em Saussure a Peirce a base fraturada dos signos nos quais se assenta a linguagem que todos nós praticamos, tem lugar privilegiado nos estudos do Ciseco e dos colóquios de Semiótica das Mídias. Para compreender a sociedade em que vivemos metodologias mais abrangentes, inteligentes e insinuantes são exigidas, para tanto os hermeneutas pedem passagem com a formulação de Heidegger, Gadamer e Ricoeur, através das propostas de hermenêutica de profundidade e de hermenêutica de facticidade. Acredito que 'Verdade e Método' de Hans Georg-Gadamer nos deixa historicamente mais próximos da verdade e enriquece os caminhos metodológicos de tantos aqueles que operam no campo das ciências humanas, que também são chamadas de ciências do espírito. 

Foto: Agência UnB

 

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