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:: Entrevistas

Colóquio da Mídias: a construção de personagens na cobertura do escândalo político – Hélder Prior

 

Ainda sob ecos da realização da 8ª edição do Pentálogo do CISECO e do Colóquio Semiótica das Mídias, publicamos uma entrevista com o apresentador do Colóquio Hélder Prior, pesquisador português que apresentou o trabalho “Heróis e Vilões na cobertura do escândalo político”, escrito juntamente com  Bruno Araújo (UnB). Confira a entrevista:

Poderia expor, inicialmente, o surgimento de seu interesse de pesquisa sobre a realidade do Brasil e o tema de escândalos políticos e a cobertura midiática?

No final de 2013, uns meses após ter defendido uma tese doutoral sobre o tema do escândalo político, fui selecionado pela Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília para realizar um estágio de pós-doutorado financiado pela Capes. O projeto pretendia estudar a cobertura midiática do escândalo político no Brasil, país onde o tema já era, na época, extraordinariamente atual. Uns meses depois eclodiu a Operação Lava Jato e, naturalmente, interessei-me pelo processo de reconfiguração deste escândalo operado pelos dispositivos de mediação simbólica. Não devemos esquecer que a realidade midiática é uma experiência em "segunda mão" e a percepção do escândalo não escapa a uma lógica de manufatura e de "maquiagem", um processo moldado por esquemas comunicacionais que selecionam, enquadram e, e alguns casos, deformam a realidade. Procuro analisar a reconfiguração dos escândalos midiáticos no livro “Esfera Pública e Escândalo Político” que, entretanto, publiquei em 2016. Por outro lado, a realidade política brasileira suscita cada vez mais interesse, particularmente no que se refere à intrincada relação entre o campo da mídia e a esfera política, e aos efeitos da cobertura jornalística nos processos de formação dessa categoria ficcional que é a chamada "opinião pública". Julgo que o impeachment de Dilma Rousseff e a consequente ruptura do caminho democrático que o Brasil vinha seguindo desde o processo de redemocratização, aumentaram o interesse dos pesquisadores estrangeiros sobre a conjuntura política do país.

 

Na perspectiva do trabalho, são apresentados modos de figuração de personagens nas revistas IstoÉ e Veja. Nesse sentido, que recursos são mais destacados nesses processo e o que mais chamou a atenção nos casos empíricos escolhidos, quando afirma que Lula e Sérgio Moro são personagens jornalísticas cujas imagens foram submetidas a um trabalho de articulação semântica?

Este trabalho, que desenvolvi com o pesquisador Bruno Araújo da Universidade de Brasília, que também se interessa pela cobertura midiática de escândalos de corrupção, está focado no processo de figuração de personagens que integram as narrativas fáticas sobre a política. Aquilo que nos interessa são as instâncias de sentido, os procedimentos retóricos e os ardis enunciativos que permitem ao leitor, consciente ou inconscientemente, reconstruir um determinado caráter dos atores envolvidos no enredo recriado. As personagens jornalísticas são sempre uma construção semiótica, um feixe de signos, um produto de estratégias intencionais do jornalista que, no entanto, são materialmente detectáveis. Focamos a nossa análise nas chamadas "cadeias de correferência", designantes textuais intencionais que ajudam o leitor a formar uma imagem das personagens (adjetivos, qualificações, relações entre coisas e processos, ações na narrativa...) e, num segundo momento, nos efeitos de sentido estéticos, isto é, nos recursos e figuras que remetem o leitor para interpretações subjetivas. As metáforas da luta livre mexicana no caso de Veja, ou do boxe na capa da Istoé, demonstram como o caso Lava Jato é instituído mediante a categoria do conflito entre Moro e Lula e como o juiz, que deveria ser árbitro no processo, é apresentado pela imprensa como adversário do ex-presidente. Também a manchete de Veja intitulada "o desespero da jararaca", onde Lula é comparado à figura mitológica da Medusa, uma criatura simbolicamente trágica, amaldiçoada e solitária, ou a manchete da Istoé, onde se verifica o recurso à intertextualidade entre a ação de Lula na Lava Jato e o livro "O Poderoso Chefão" de Mario Puzo, adaptado posteriormente ao cinema por Coppola, são exemplos de estratagemas usados para instituir o acontecimento. Este último exemplo é ilustrativo de como, muitas vezes, existe uma associação da política ao mundo da máfia ou do crime mediante frames com os quais o leitor está familiarizado.  

Nos materiais destacados das revistas, Sérgio Moro é figura heroicizada e Lula figura como um vilão cuja ação na narrativa é combatida pelo seu antagonista direto. Nessa contraposição bem e mal, outros elementos, como psicológicos, ideológicos e morais, são apresentados na construção de efeitos de sentido. Poderia explicar o que propõem a chamar de economia da atenção do escândalo político e o papel no jornalismo?

Na perspectiva do trabalho apresentado, as personagens Lula da Silva e Sérgio Moro devem ser analisadas como escolhas do projeto dramático do narrador/jornalista que faz opções argumentativas na caracterização e posicionamento dessas personagens. É o narrador/jornalista que determina, em função de determinadas intenções comunicativas, aquilo que acontece com as personagens, as suas ações, os papéis desempenhados na trama, os seus estados de espírito... Mediante essas escolhas comunicativas, que repito, não são ingênuas, é possível identificar as funções atribuídas às figuras discursivas Lula da Silva e Sérgio Moro. Em síntese, e segundo as matérias analisadas, tornou-se evidente uma certa heroicização e celebrização da figura do juiz, com conotações valorativas nos planos ético e psicológico de alguém que corporiza a luta pela moralização da política e a esperança dos cidadãos brasileiros de que desta vez os corruptos serão punidos. Já o ex-presidente é alvo de uma cobertura eminentemente negativa, construindo-se um imaginário mediante representações imagéticas, caricaturas, que condicionam a atenção do leitor, apresentando Lula como "chefe" ou "comandante" de uma quadrilha que assaltou os cofres públicos.

Neste processo de personalização do escândalo, tais estratégias não deixam de ser meios técnicos ou artísticos de capitalização da atenção pública. Os meios de comunicação operam, na atualidade, num mercado de hiperconcorrência onde a disputa por atenção pública tem provocado a erosão das regras e a adoção de estratégias economicamente mais vantajosas, ainda que duvidosas do ponto de vista ético. A superabundância de produtos mediáticos transformou a atenção pública em algo cada vez mais raro e, por conseguinte, mais valioso. Com efeito, ao se rarear, a atenção adquire valor e quanto maior for a disputa por atenção, maior é a probabilidade dos desvios à norma se difundirem, criando novas normas no processo de produção da informação. O caráter das notícias deslocou-se do acontecimento para as narrativas apelativas sobre o acontecimento cujas regras de produção das manchetes, dos títulos, dos leads e das imagens seguem os pressupostos da economia da atenção. É por isso que o jornalismo privilegia hoje a espetacularidade da informação, a forma da enunciação e não o seu conteúdo. Nas sociedades pós-modernas, o sistema funciona sobretudo pela mais-valia estética do signo e, neste ponto, o escândalo representa uma mercadoria informativa bastante valiosa na luta dos meios de comunicação pela conquista de audiências e de atenção pública. O desvelamento e a publicização de transgressões, a apresentação das personagens envolvidas, a construção midiática do enredo, dos golpes de cena e dos episódios, o enquadramento dos conflitos entre atores sociais, a construção da dramaticidade, os efeitos de sentido característicos do trabalho plástico da imprensa, o suspense e a serialidade inerentes ao fenômeno, enfim, tudo se constitui como uma mais-valia no momento de converter a informação em algo aprazível, estético, apelativo e facilmente consumível. Abordo este tema num artigo recentemente publicado na Revista Observatório e que se intitula, precisamente, A Economia da Atenção do Escândalo Político.

Em sua apresentação, mostra opções da mídia por uma figuração reduzida a traços identificadores desprovidos de complexidade. Ampliando a análise, o que pode afirmar de prejuízo numa construção midiática baseada na redução à personalização herói/vilão nos casos apresentados?

Não obstante o discurso midiático se caracterizar pelo dever de referencialidade, isto é, pelo dever de dar conta do que acontece no mundo da vida, quando falamos dos atores sociais Lula da Silva e Sérgio Moro, e dos constructos midiáticos respectivos, estamos, na verdade, a falar de duas entidades distintas. As personagens constituem-se como representações de pessoas reais retratadas nos textos jornalísticos, representações resultantes de um processo de construção social da realidade restringido a meros traços identificadores, incompletos, redutores que, no entanto, permitem ao público formar uma determinada percepção. O mesmo é dizer que a ideia que as pessoas, quando ouvem ou leem as notícias, formam dos atores políticos, jurídicos, desportivos ou outros, é formada pelo poder de voz do jornalista que, naturalmente, tende a reduzir a complexidade da descrição ou caracterização, criando, na maioria das vezes, personagens estereotipadas. No caso da cobertura midiática de escândalos políticos, essa figuração simplificada cria heróis e vilões, bons e maus, transgressores e "purificadores", culpados ou inocentes, na maioria das vezes antes da sentença e devido ao fato de a mídia, quase sempre, se antecipar ao inquérito judicial, formando os tais julgamentos de opinião pública. Como é lógico, isto acaba por reduzir a complexidade de processos e fenômenos da vida pública que são muito mais complexos, para além de fulanizar e personalizar excessivamente a discussão sobre a política e a justiça. Não devemos, portanto, esquecer, que das personagens Sergio Moro e Lula da Silva sabemos apenas aquilo que a imprensa delas nos conta e mediante critérios de verossimilhança. 

Hélder Prior é autor de “Esfera Pública e Escândalo Político – A Face Oculta do Poder”, editado pela Media XXI. A obra faz uma análise do fenômeno do escândalo, além de realizar questionamento crítico da esfera pública contemporânea

 

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