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“Democracia Fraturada” e estratégias discursivas da imprensa: “a lógica perversa das falsas dicotomias”

Entrevista - Pedro Nunes - Foto: Reprodução

PERGUNTA: Qual foi a sua motivação  para a elaboração do  livro, considerando que  envolve vários aspectos, conforme sugere o próprio título  (Democracia Fraturada: a derrubada de Dilma Rousseff, a prisão de Lula e a Imprensa no Brasil)?

RESPOSTA: Diante do cenário de crise sociopolítica que atravessa o Brasil com sua imensa complexidade, me perguntei o seguinte: Qual poderia ser a minha contribuição efetiva, na condição de pensador e documentarista, acerca do atual momento político em que o mais alto mandatário da República simpatiza com o nazifascismo, desrespeita os direitos humanos e fere a nossa democracia? Como as principais instituições que compõem o Estado Democrático de Direito (Poder Judiciário, Poder Executivo e Poder Legislativo) atingiram níveis tão acentuados de degradação, a ponto de afetar diretamente a democracia brasileira? Qual o comportamento da imprensa corporativa brasileira ao noticiar acontecimentos ligados diretamente às quebras de institucionalidade relacionadas aos protagonismos vinculados à deposição de Dilma Rousseff, e aos protagonismos do então juiz Sergio Moro, do Ministério Público e da própria imprensa em relação à condenação do ex-presidente Lula? Qual o papel do Jornalismo Investigativo referente à ressignificação dos acontecimentos, manejos das fontes, contextualização dos fatos, conduta ética e aprofundamentos necessários relacionados às diferentes coberturas noticiosas? Diria que estas foram as principais questões que nortearam a construção investigativa do meu trabalho acadêmico. Particularmente, não me detive na primeira questão, que tem como objeto o atual presidente Jair Messias Bolsonaro, e, sim, examinei algumas questões que possibilitaram ao mesmo o pleno exercício da Presidência da República pelo exercício do voto direto. O presente trabalho evidencia, portanto, alguns destes paradoxos, que atestam as fragilidades da democracia brasileira, culminando com a posse e ações “desgovernadas” de Bolsonaro. Há uma espécie de cegueira consentida por parte do Poder Judiciário, do Poder Legislativo e de outros micropoderes em que se assenta a democracia. Não há a necessária metacriticidade ou autorreflexividade por parte dessas instituições basilares do Estado. Então, examino essa processualidade que antecede o golpe jurídico-parlamentar-midiático, detalhes das tramas jurídicas elaboradas para a condenação do ex-presidente Lula e o descumprimento do papel da imprensa diante da manipulação sórdida dos acontecimentos. Esses fatores diversificados revelam as fraturas expostas da democracia brasileira. Destaco, ainda, que, além dessas rachaduras, há vários outros nós que ainda precisam ser desatados, explicados e interpretados. Diria que esse é o papel fundamental da academia e dos institutos de pesquisa: atravessar as aparências dos fenômenos complexos pelo viés interpretativo das buscas prospectivas, com rigor metodológico (e conceitual) e graus de liberdade quanto à construção narrativa.

 

P: Quais os principais procedimentos adotados para estruturação do livro?

R: Escolhi o gênero ensaístico híbrido incorporando características da perspectiva documental quanto ao manejo, contextualização, recortes e interpretação dos fatos. A adoção desse procedimento documental foi possível graças à minha vivência de operar com a construção de narrativas audiovisuais no campo do cinema e do vídeo (eletrônico ou digital). Então trouxe para essa obra específica de cunho textual, no caso Democracia Fraturada, essa minha longa experiência como diretor de documentários que capta determinadas cenas já operando com recortes, correlações, profundidade, mas que também prioriza o momento da edição, como forma de estabelecer diálogos, relações contrastantes, relações de sincronicidade ou mesmo gerar turbulências segundo princípios da montagem “eisensteineana”. Então, há essas marcas, ou traços, provenientes das construções sonorovisuais presentes na estruturação verbal de Democracia Fraturada. Quis, por intencionalidade própria e diante de fatos tão graves, me movimentar de modo mais livre quanto ao manejo de diversificadas fontes, confronto de ideias, adensamento dos conceitos, percurso metodológico, idas e vindas da narrativa, critérios científicos e o estabelecimento de diálogos com a literatura. Desse modo, pude percorrer caminhos híbridos para a construção do presente ensaio documental, mas sem perder de vista os recortes transversais e a fundamentação contextual transdisciplinar que merece cada tema tratado na referida construção significante. O livro se apresenta enquanto um mergulho interpretativo em busca de personagens reais que atuaram como protagonistas (individuais ou coletivos) de nossa história, a exemplo de Aécio Neves, Eduardo Cunha, Lula, Dilma Rousseff, Moro, as manifestações de 2013, o Parlamento brasileiro, o Judiciário, o Ministério Público, a Imprensa, dentre outros.

Para lidar com essa teia de situações complexas, fiz uso de diferentes documentos, textualidades e material de arquivo: trechos de sentenças jurídicas; atas taquigráficas da Câmara Federal; matérias da imprensa (jornais e revistas); matérias de portais e blogs especializados; matérias de telejornais; editoriais; artigos científicos; livros acadêmicos; análise de vídeos; exame de fotografias; entrevistas, dossiês temáticos, documentos de áudio, trechos de escutas telefônicas, infográficos de bancadas parlamentares,  alusões a trechos de filmes e à obra literária O processo. Assim, através de seus recortes interpretativos polifônicos, a riqueza do livro reside justamente na mobilização, pelo veio transdisciplinar, que realiza de diferentes textualidades no intuito de colocar em evidência a crise política vivida pela democracia brasileira. A escolha deste percurso rizomático, em forma de ensaio documental, permitiu que eu pudesse estabelecer entrelaçamentos e estruturar as ideias com graus acentuados de liberdade sem afetar o rigor analítico da referida produção acadêmica. 

 

P: Existe um momento da história recente do país que possa ser considerado como marco inicial da crise política analisada em sua obra?

R: Estabeleço no livro Democracia Fraturada dois marcos referenciais que funcionaram como demarcadores para a deflagração da crise da democracia brasileira culminando com a destituição da ex-presidenta Dilma Rousseff, a prisão do ex-presidente Lula (com suas falhas processuais e abusos jurídicos), a espetacularização da Lava Jato, até a consagração eleitoral de Jair Messias Bolsonaro. Então enunciei como demarcador inicial o conjunto de "Manifestações de junho de 2013", também denominado como "Revolta do Vinagre", tendo como pano de fundo a crise econômica e política. Várias bandeiras de luta desse movimento difuso relacionadas com a corrupção foram apropriadas pela direita, extrema direita e por grupos autodeclarados conservadores. Grosso modo, essas pautas de cunho nacionalista e “antiesquerda” tomaram conta dessas manifestações de rua em todo o Brasil. Gradualmente, a lógica perversa das falsas dicotomias (“antigoverno”, “antipetista”, “anticorrupção”) foi absorvida pela imprensa corporativa brasileira, lembrando que, inicialmente, essa mesma imprensa foi contrária ao movimento ruidoso com algumas de suas múltiplas bandeiras que confrontavam o governo Dilma Rousseff.

Então, as "Manifestações de Junho", em sua potência, pluralidade e complexidade, eclodiram originalmente por reivindicações de grupos de esquerda e na sequência foram tragadas por segmentos de direita e grupos “antipetistas”. Essas vozes proeminentes funcionaram como uma espécie de gênese dos estopins que culminaram com o Golpe de 2016. A então presidenta Dilma Rousseff, apesar de sua determinação política, não conseguiu colocar em prática algumas das principais bandeiras clássicas levantadas pelo Movimento, a exemplo da execução da Reforma Política, face a total falta de apoio do Parlamento brasileiro — os deputados e senadores estavam muito mais empenhados em tramar ações para enfraquecer Dilma Rousseff. Dessas manifestações brotaram, de modo mais explícito, os ideais de uma "nova direita" (que estava de tocaia), além da emergência de setores conservadores (empresários, ruralistas e parlamentares evangélicos) que passaram a atuar em uma linha de confronto mais direto com a esquerda e o então governo. Apesar de sua aparente "beleza contestatória" e força nos ambientes virtuais, a “Revolta do Vinagre” exibiu faces de intolerância, saídas antidemocráticas, alternativas políticas simplistas, oportunismos, além da imprensa e da mídia que retomarem o seu protagonismo espetacularizado. Todos esses mecanismos de pressão decorrentes das Manifestações de junho de 2013 minaram a capacidade de resistência e de governar de Dilma Rousseff, ainda em seu primeiro mandato.

O outro fator importante que considero como um espelho referencial histórico, e que de certo modo acentuou a crise política para o chamado Golpe, foi a consagração da vitória eleitoral de Dilma Rousseff para o exercício de seu segundo mandato frente a Presidência da República do Brasil. Essa reconquista triunfante fez eclodir uma oposição política raivosa, tendo à frente o protagonismo do candidato perdedor, o então senador Aécio Neves. Insatisfeito com a vitória de sua oponente, Aécio Neves declarou guerra à ocupante do Palácio do Planalto, traçando um conjunto de estratégias rasteiras com apoio do baixo clero, bancadas conservadoras e o protagonismo, em termos de força política, do deputado Eduardo Cunha, então presidente da Câmara Federal. Esses dois atores políticos evidenciaram a extraordinária força de um Parlamento brasileiro corrompido, com senadores e deputados conspirando nos bastidores, gabinetes ou no próprio Plenário das respectivas Casas legislativas. A imprensa, as pressões sociais e ações seletivas da Lava Jato foram os ingredientes explosivos para se incrementar toda uma vergonhosa performance nas duas casas legislativas, culminando com o golpe jurídico-parlamentar-midiático de Dilma Rousseff em 2016.

A ocorrência desses dois marcadores fluidos congrega uma série de episódios, forjados para acentuar a crise política no Brasil e culminar com o abalo do Estado Democrático de Direito. Lembrando que o Poder Legislativo, o Poder Judiciário e a Imprensa são apontados enquanto instâncias distintas de Poder que contribuíram para essas rachaduras da nossa jovem democracia brasileira.

 

P: Como o senhor analisa as estratégias discursivas utilizadas pela mídia durante o processo de impeachment?

R: A imprensa e os complexos midiáticos valeram-se de diferentes estratégias discursivas diretas, indiretas e redes entrecruzadas de influências que interferiram no processo de formação da opinião pública referente ao processo do impeachment de Dilma Rousseff e aos desdobramentos dos acontecimentos que culminaram na prisão do ex-presidente Lula. Logo, essas estratégias midiáticas expandidas, envolvendo o jornalismo, acabaram atravessando as complexas volatilidades das redes sociais e ambientes multiplataforma.

Nesse contexto do recorte da pergunta, que precede e sucede o impeachment, é importante reiterar que tanto a imprensa tradicional como os diferentes complexos midiáticos brasileiros de rádio e televisão evidenciaram seus respectivos comprometimentos político-econômicos, espelhando, notadamente, os matizes ideológicos dos coronéis da mídia. Em sua maioria, posicionaram-se de modo favorável ao processo de impeachment e conduziram direcionamentos narrativos desfavoráveis à figura política de Luiz Inácio Lula da Silva. Com suas respectivas estratégias discursivas de manipulação, declararam uma guerra aberta a um governo de esquerda eleito pela via democrática e auxiliaram no processo de fabricação de mitos associados a sentimentos maniqueístas e “antipetistas”. Com seus poderes de persuasão, mecanismos de identificação e mascaramento da realidade, inflamaram a crise política com notícias “espetacularizadas” (sem o devido aprofundamento dos temas tratados e as checagens necessárias em todo processo de produção da notícia), além de cometerem outros abusos igualmente incompatíveis com a conduta ética que deve perpassar toda e qualquer cobertura jornalística. Diria, assim, que a imprensa, em seu conjunto, salvo honrosas exceções, escolheu o seu próprio posicionamento de combate ao eleger os alvos de seus ataques políticos, ao mesmo tempo em que preteriu, ou desqualificou, temas de indiscutível relevância. Desse modo, ao lidar com fatos e acontecimentos de interesse público, abusou de seu papel de retratar aspectos da realidade com a devida dimensão ética e transparência.

Esse protagonismo midiático pode ser facilmente entendido a partir de dados levantados em 2014, pelo Projeto Donos da Mídia, que comprovam que 271 políticos, mesmo em face de proibição constitucional, eram donos de 324 veículos de comunicação, isso sem contar as concessões públicas destinadas a proprietários de fachada que, portanto, escondem possíveis vinculações político-partidárias. Além da concentração dos monopólios midiáticos em mãos de políticos e parlamentares, outros fatores — a exemplo das manifestações de junho de 2013 (com seus desdobramentos nos anos seguintes), das tramas parlamentares relacionadas ao processo de impeachment e da farsa jurídica (urdida pelo então juiz Moro e por procuradores federais integrantes do Ministério Público) que culminou com a prisão de Lula — se constituíram como fenômenos geradores de produção noticiosa por parte de uma imprensa manipuladora, que atuou de modo escancarado como porta-voz de seus proprietários midiáticos em plena sintonia com representantes de grupos políticos conservadores, empresários, ruralistas e outros.

Saliento que nesses episódios destacados, a imprensa, com seu amplo espectro de influência, atuou como uma grande protagonista quanto à ressignificação de todos esses acontecimentos encenados, operando com filtros, estratégias discursivas consideradas impróprias, enviesamentos presentes no processo de construção de suas narrativas e posicionamentos político-ideológicos com ataques bem direcionados. Então, foi possível constatar, a partir de estudos de caso analisados no livro Democracia Fraturada, que a imprensa brasileira não cumpriu com o seu dever ético de informar com responsabilidade social e distanciamento crítico necessário, eximindo-se quanto à contextualização dos fatos para com o leitor e a história futura.

Vários dos relatos narrativos relacionados ao processo de impeachment de Dilma Rousseff foram intencionalmente distorcidos por parte significativa da grande imprensa brasileira, que, abertamente, manipulou a opinião pública, ocultando informações relevantes vinculadas ao cotidiano da crise política. O jornalismo, conhecido por sua missão de produzir os rascunhos para a história, operou, nesse caso, com filtros político-ideológicos e apagamento de fatos determinantes para se elucidar as tramas e farsas políticas relacionadas com o golpe jurídico-parlamentar e a prisão de Lula. Por fim... Gostaria de assinalar que o livro Democracia Fraturada foi originalmente produzido antes da publicação de um conjunto de reportagens jornalísticas, disponibilizadas pela agência de notícias The Intercept Brasil, sobre a operação Lava Jato, envolvendo conversas entre o ex-juiz Sergio Moro, o procurador federal Deltan Dallagnol, representantes do Supremo Tribunal Federal, integrantes da Polícia Federal e agentes do Ministério Público. Os vazamentos disponibilizados sob o amparo constitucional em que preserva o sigilo da fonte, só comprovam e reiteram as linhas de argumentações apresentadas e desenvolvidas no referido ensaio documental.

 

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