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Pesquisador relaciona mídias com prevenção e tratamento da sífilis: “é preciso equacionar outras formas de comunicação mais territorializadas”

Entrevista - Juciano Lacerda - Foto: concedida pelo entrevistado

PERGUNTA: A leitura dos públicos acerca das campanhas de prevenção e tratamento da sífilis sofre influência de linhas de sentido simbólico já atribuídas socialmente ao assunto?

RESPOSTA: A sífilis, a exemplo da tuberculose, da hanseníase e outras enfermidades é conhecida como uma “doença social”. Sua evolução na história é intrinsecamente relacionada ao próprio desenvolvimento histórico das sociedades e é reveladora de aspectos importantes desse desenvolvimento social do ponto de vista ético, econômico, político, social e artístico. Um artigo escrito em 2019 por Jane F. Dantas, Aline P. Dias e Ricardo Valentim trata da representação da sífilis nas artes através dos séculos. Segundo os autores, vários artistas tiveram a influência da enfermidade, direta ou indiretamente na sua obra, alguns vindo a óbito ou a um estado de demência ou cegueira por causa da doença. Entre eles, Bevenuto Cellini, os pintores Paul Gauguin, Édouard Manet e Toulouse-Lautrec, e os músicos Franz Schubert, Robert Schumann, Hugo Wolf e Niccolò Paganini. Chamada de a “grande imitadora” por apresentar formas clínicas que a confundem com outras enfermidades, a sífilis é uma das infecções sexualmente transmissíveis (IST) com maior prevalência no mundo. A imprensa tem anunciado tanto o grande aumento de casos no Brasil como na Europa e em outras partes do mundo. Há sinais concretos da sífilis desde o século XV, sendo que algumas teorias apontam sua origem na África Central, outras que já existia na Europa e outras, ainda, que teria sido trazida das Américas por navegadores de Cristovão Colombo. Um fato concreto é que muitas das guerras europeias, com exércitos de mercenários vindos de várias partes do mundo, teriam sido vetor de disseminação da sífilis por toda a Europa. Antigamente, infecções como sífilis, gonorreia e outras cuja transmissão se dava principalmente pela relação sexual eram chamadas de “doenças venéreas”, numa alusão a Vênus, a Deusa do Amor. Desta forma, contrair a sífilis através de uma relação sexual sem proteção é representado muitas vezes como uma punição, num viés religioso, como um castigo divino, por uma visão moralista sobre o sexo. O fato de poder passar despercebida ou confundida com outros sintomas leva as pessoas a não buscarem o tratamento adequado. Outro aspecto é que o tratamento com a penicilina benzatina é eficaz e produz a cura, se manejado da forma correta, mas não produz imunidade. Assim, a pessoa pode se reinfectar caso volte a ter relações sexuais com uma parceria que não passou pelo tratamento. Historicamente, as campanhas de prevenção e tratamento da sífilis focavam principalmente as gestantes, durante o pré-natal, para que fizessem o teste, na tentativa de evitar a sífilis congênita, que os bebês podem contrair da mãe infectada. Mas não enfocavam as parcerias e as responsabilidades que tinham em também fazer o teste diagnóstico e, caso infectadas, passar pelo tratamento junto com a gestante. O uso do preservativo e o teste rápido, que é feito nas unidades de saúde, são as formas atuais mais eficazes para prevenção e diagnóstico.

 

P: Qual a importância de pesquisas como a intitulada “Pesquisa Aplicada para Integração Inteligente Orientada ao Fortalecimento das Redes de Atenção para Resposta Rápida à Sífilis” para o diálogo da mídia com o público, pensando em uma possível ressignificação?

R: Pesquisas que avaliem os possíveis efeitos das mensagens de prevenção, seja da Sífilis, da sobre Aids ou outras IST são fundamentais. Realizamos uma revisão integrativa sobre artigos científicos que tenham se debruçado sobre a análise de campanhas de prevenção da sífilis. Dos 892 artigos identificados na pesquisa apenas seis contemplaram o objetivo deste estudo, sendo que todos apresentaram estratégias de saúde, mas somente três citaram estratégias de comunicação. Contudo, o Projeto de Resposta Rápida a Sífilis tem uma amplitude muito maior. A Resposta Rápida à Sífilis nas Redes de Atenção é um projeto interfederativo de cooperação técnica que envolve o Ministério da Saúde, Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde, a Secretaria de Educação a Distância e o Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (SEDIS e NESC-UFRN) e a Organização Pan-americana da Saúde (OPAS). É executado pelo Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS), do Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL/UFRN). Trata-se de uma estratégia de indução nacional, de caráter estruturante, com objetivos de promover ações conjuntas, integradas e colaborativas entre as áreas de vigilância e atenção em saúde no território. No que diz respeito à comunicação, as ações envolvem processos educomunicativos com públicos específicos, articulados a processos de comunicação massiva. A sífilis é democrática, atinge a todos os públicos, mas há populações que estão em situação de maior vulnerabilidade. Não é possível usar a mesma mensagem e os mesmos canais para falar com pessoas em situação de encarceramento, pessoas que vivem nas ruas, populações indígenas, mulheres grávidas e baixa renda e escolaridade, jovens com relacionamento hetero ou homoafetivos, idosos ou trabalhadoras do sexo. Neste caldo complexo entram também os aspectos socioculturais, as relações de poder econômico e social, as relações de gênero etc. Um dos aspectos, por exemplo, é ressignificar o uso do preservativo, para que não seja visto como algo que estabelece uma barreira entre o sujeito e o prazer. Outro aspecto mais importante é implementar uma nova cultura de prevenção pautada na realização periódica do teste rápido diagnóstico, que é oferecido na atenção básica e cujo resultado pode ser dado em 15 minutos. Mas o projeto também desenvolve pesquisas relacionadas à busca de novas formas de prevenção e tratamento da sífilis como também de otimizar, qualificar e racionalizar os processos de trabalho e os fluxos de seguimento das pessoas em tratamento.

 

P: A mídia deve servir como mediadora discursiva entre o Ministério da Saúde e os públicos que se pretende atingir? Neste caso, quais tipos de mediação seriam possíveis?

R: Como já dizia Joseph T. Klapper a mídia é uma condição necessária, mas não é suficiente. Por exemplo, é possível fazer uma campanha que tenha sucesso em levar as pessoas a buscarem o teste rápido, mas por problemas de logística e de infraestrutura grande parte das unidades básicas de saúde, naquele momento, estarem em falta com os insumos para realizar tais testes. Isso seria um grande problema. No Brasil, em 2016, tivemos um grave problema de falta do fornecimento de penicilina devido à mudança nas legislações ocorridas desde os anos 1990 no mercado farmacêutico, com muitas farmoquímicas brasileiras vindo à falência e as que restaram não davam mais conta de suprir a necessidade brasileira de antibióticos, especialmente a penicilina por seu baixo valor comercial. Há também problemas relacionados ao processo de seguimento da pessoa que está em tratamento, principalmente quando é uma gestante, para se monitorar se houve a aplicação de todas as doses necessárias e um novo teste, em laboratório, para se confirmar a cura. A atuação da mídia é importante como forma de dar visibilidade e existência do problema da sífilis, como epidemia, mas é preciso equacionar outras formas de comunicação mais territorializadas, com apoio das mais distintas instituições como ONGs, coletivos, gestores e profissionais de saúde, escolas e diversos outros grupos sociais. A mediação institucional é um elemento chave para dar sustentação simbólica e produzir a tomada de decisão e mudança de comportamento, a partir das mensagens midiáticas que despertam os sentidos de forma mais ampla e genérica. Um exemplo de mediação institucional é o caso dos discursos e sentidos produzidos sobre quem deve ou não ministrar a penicilina. Embora em 2017, o Conselho Federal de Enfermagem tenha publicado uma Nota Técnica (COFEN-CTLN N° 03-2017) que afirma que a ausência do médico na Unidade de Saúde não configura motivo para não realização da administração oportuna da penicilina benzatina por profissionais de enfermagem, ainda há muita resistência dos profissionais em realizá-la, justificando a negativa por falta de capacitação específica ou falta de estrutura das unidades de saúde em um possível caso de choque anafilático. O argumento tem sua validade, mas o fato é que o risco de choque anafilático por penicilina é bem menor que o risco por consumo de camarão. E um profissional de saúde encaminhar uma gestante que foi identificada com sífilis, durante o pré-natal, para uma unidade de referência distante pode representar uma barreira à continuidade do tratamento, que é de máxima urgência. Desta forma, a mídia é importante para a sensibilização dos profissionais de saúde sobre os sentidos que produzem em relação à capacidade ou condições materiais e institucionais de ministrar a penicilina. Mas a ação midiática precisa estar articulada à formação permanente via métodos de educomunicação presenciais e via EAD, além de ações de comunicação junto aos gestores, tendo em vista melhorar as condições do processo de trabalho nas unidades básicas de saúde.

 

P: Conforme a proposta temática do Pentálogo X, “Comunicação, Aprendizagens e Sentidos: difusão, mediação, interfaces, bifurcações”, qual o papel destas matrizes, que constam da proposta do Pentálogo X, para a melhoria das condições de produção e de circulação de conhecimentos, visando tornar campanhas e suas propostas (como a pesquisa, em que trabalha), compartilhadas com a sociedade, afetando graus de conhecimento sobre o assunto?

R: Creio que é importante admitir a existência de múltiplos sentidos que se colocam em jogo a partir de vários agentes do discurso. Compreender que a comunicação é um elemento fundamental nesse processo e que envolve condições específicas de produção, circulação e reconhecimento das mensagens. É também preciso problematizar as diversas formas de aprendizagem sobre saúde/doença e como estas se processam hoje com auxílio de outras estratégias e interfaces como as redes sociais, os games, a produção cultural imagética e mesmo os dispositivos baseados em inteligência artificial e algoritmos. Desta forma, os processos de difusão das informações se demonstram muito mais complexos. As mediações institucionais, culturais, religiosas, de gênero e gerações, as diversidades sexuais operam na produção dos sentidos sobre a sífilis e outras IST, produzindo bifurcações dos sentidos com as quais precisamos lidar em todas as instâncias, tendo em vista o desafio cultural imenso da mudança de comportamentos que nos deixam em situação de vulnerabilidade diante das enfermidades.

 

P: Quais os desafios a oferta de conhecimento (sobre a sífilis, por parte de instituições científicas) podem ser detectados pela pesquisa junto ao mundo dos atores sociais? Como estão sendo enfrentados?

R: Há desafios no campo da vigilância em saúde, gestão e governança, assistência e educomunicação. No campo da vigilância em saúde, temos o desafio de fortalecer os sistemas de informação estratégicos, tendo em vista qualificar as informações epidemiológicas, a notificação e investigação, com seguimento clínico-laboratorial e fechamento dos casos de sífilis adquirida, sífilis em gestantes e sífilis congênita. No campo da gestão e governança, há o desafio de se instalar uma sala de situação nacional que contenha informações voltadas para a tomada de decisão e o fortalecimento da gestão e da prática profissional, incluindo a geração de conhecimento no campo de resposta rápida à sífilis, incluindo o monitoramento do desenvolvimento do projeto. Neste aspecto estão sendo desenvolvidas tecnologias de informação que envolvem o uso de inteligência artificial para monitoramento, mineração e interpretação dos dados. Na assistência, diante do desafio de se aumentar a cobertura do diagnóstico e tratamento, busca-se operacionalizar uma linha de cuidado da sífilis adquirida, da criança exposta à sífilis e com sífilis congênita em seus diferentes níveis de complexidade nas redes de atenção, incluindo os pontos de prevenção e de intervenção direcionados a populações-chave. No campo da educomunicação, há o desafio de atuar com uma diversidade de públicos: gestores, profissionais de saúde, população em geral, populações-chave, em que se busca operacionalizar um ecossistema comunicativo que articule a comunicação massiva tradicional (televisão, rádio, jornal e revistas), as plataformas de mídias sociais e de redes sociais digitais, desenvolvimento de aplicativos e de produtos transmidiáticos em ambientes digitais de educação à distância. Da mesma forma em que se potencializam estratégias de comunicação comunitárias e interpessoais nas ambiências das unidades de saúde e em ações desenvolvidas nos territórios por agentes de saúde.

 

Livros do pesquisador:

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