CISECO - Centro Internacional de Semiótica e Comunicação

Proposta Temática - Pentálogo IX

Pentálogo IX

24 a 28 de setembro de 2018

MIDIATIZAÇÃO E RECONFIGURAÇÕES DA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA

<<Confira a versão em inglês>> 

Resumo 

Ao longo das primeiras décadas do século XXI observa-se intensas manifestações dos processos de midiatização reconfigurando o funcionamento de práticas sociais no contexto da democracia representacional. Tais mutações se caracterizam, em um primeiro momento, pelo peso crescente da internet e as formas de contato direto entre governos e as sociedades. E, no segundo momento, mediante novos processos comunicacionais que permeiam as estruturas das instituições e de suas práticas sociais, gerando consequências sobre a ambiência social mais abrangente. Não se trata de afetações abstratas, mas de operações e de lógicas midiáticas que atravessam o modo de funcionamento de instituições de diferentes áreas (educação, religião, científica, associativa, política, esportiva, etc) fazendo desaparecer ou, então, reformulando as suas instâncias medidoras, de transferências e de ofertas de conhecimento. As operações de midiatização no âmbito de destas diferentes práticas se manifestam segundo diversidades de estratégias que são dinamizadas segundo feedbacks complexos, conforme exposição de conteúdos e relatos de experiências que serão apresentadas o durante o Pentálogo IX. 

 

Objetivos

GERAIS 

Aprofundar as afetações da midiatização sobre práticas sociais diversas no contexto da democracia representativa, tendo como referência diferentes cenários sócio comunicacionais.  

ESPECÍFICIOS 

- Examinar interpenetrações de práticas sociais diversas, através de operações de midiatização, afetando de modo sistêmico a organização social e seus processos de decisão;

- Descrever estratégias postas em funcionamento pela aliança entre “velhos e novos meios” visando eleger operações de comunicação como insumos dos processos organizadores da gestão simbólica, na sociedade em vias de midiatização; 

- Analisar os processos de transformação de antigas estruturas mediadoras dando lugar a novos dispositivos de referência na transferência e oferta de conhecimento. Particularmente, seus efeitos sobre práticas sociais “canônicas”, em áreas como: política, educação, ciência, associativismo e outras relacionadas com as “estratégias de demandas” que a sociedade encaminha ao nicho de instituições estabelecidas. 

 

JUSTIFICATIVA 

Ao longo de sua existência, o CISECO tem procurado realizar na região Nordeste do Brasil, através do seu fórum de reuniões anuais, o debate e estudos de temas que envolvem as articulações de problemáticas sócio-semióticas e que com relação direta com o universo da comunicação. Especialmente, as configurações e os efeitos das afetações das operações de midiatização sobre o funcionamento das práticas sociais e seus efeitos sobre a reconfiguração da democracia representativa. No contexto do Pentálogo IX, pretende-se ir além dos resultados do Pentálogo Inaugural, em 2009, quando constatou-se que o exercício da função presidencial já se encontrava em mudança profunda associada às novas tecnologias de comunicação, impulsionada pela internet. Desta feita, pretende-se, através dos relatos de pesquisadores de vários contextos acadêmicos e de pesquisa nacionais e internacionais, examinar os avanços destas atividades. Sobretudo, através da busca e avaliação de processos metodológicos que ajudem a compreender as estratégias que complexificam as relações entre midiatização e práticas sociais diversas, em termos de ações comunicacionais e suas produções de sentido. O horizonte de potencialidades destas atividades pode ser visualizado na programação deste evento, que aponta para os temas a serem tratados. Do mesmo modo os perfis dos expositores, cujas referências atestam a qualidade dos debates a serem travados envolvendo pesquisadores, especialistas, professores e profissionais de diferentes áreas de conhecimento, bem como estudantes de graduação e de pós-graduação. Estima-se ainda um forte impacto deste evento sobre as instituições mais próximas ao contexto da realização do Pentálogo, como universidades, instituições de pesquisas, sociedades científicas, entidades representativas e fóruns especializados.

O tema do Pentálogo IX visa aprofundar, após quase 10 anos da criação do CISECO, as afetações da midiatização sobre práticas sociais diversas, no contexto da democracia representativa. A presente proposta pretende examinar as incidências da midiatização nas configurações da “democracia representativa” no contexto atual do “capitalismo de plataforma”, levando em conta fenômenos que já despontavam na primeira década dos anos 2000, como consequência do surgimento de uma “arquitetura comunicacional”, cujas lógicas e operações de funcionamento já produziam interações – muitas delas inéditas – entre práticas sociais diversas.

Por ocasião do Pentálogo Inaugural em 2009, em torno do tema: “Transformações da midiatização presidencial: corpos, relatos, negociações, resistências”, o exercício da função presidencial nos regimes democráticos já se encontrava em mudança profunda associada ao peso crescente da internet e as formas de contato direto entre governos e a sociedade, segundo protocolos emergentes da midiatização.   

 As implicações destas novas articulações ali apareceram especialmente na fala de Umberto Eco¹, que associou o papel da construção da imagem para a vida da política – com “o fim da democracia representativa”. Em apenas duas ou três décadas acentuam-se as implicações destas transformações. Porém já no início do século XX os “mass medias” despontavam como vetores de mediação da política, particularmente no cenário da “sociedade dos meios”, destacando-se como “intermediários incontornáveis da gestão do social”² . Na passagem para o período da “sociedade em vias de midiatização”, tal condição complexifica-se na medida em que culturas, lógicas midiáticas ampliam suas presenças em práticas sociais gerando consequências sobre a ambiência social mais abrangente. 

A midiatização não se trata da reedição de velhos paradigmas causalistas que orientavam as pesquisas de opinião sobre as preferências eleitorais por parte de públicos. Aponta-se, agora, interpenetrações de práticas de vários sistemas, envolvendo empresas digitais midiáticas, financeiras, pesquisas, instituições acadêmicas e partidos políticos. A referência mais atual tem a ver com o acesso e manipulação de dados de usuários de contas do Facebook, e transformados em mensagens segundo apelos distintos, para diversos setores de um novo mercado político-eleitoral, no cenário norte americano. Não se trata de uma interferência abstrata das tecnologias digitais no âmbito da política, pois delas se ocupam instituições de várias naturezas para organizar e regular decisões e escolhas de mercados diversos, segundo lógicas algorítmicas. 

Estas transformações dizem também respeito a uma atividade sistêmico-organizacional mais ampla na qual se promove alianças entre “velhos e novos meios”, enquanto operadores complexos que articulam estratégias discursivas que são enunciadas em tempo real, ofertando sentidos em torno de temas, como os do impeachment da presidente e a condenação de ex-presidente, no contexto brasileiro. As mídias acentuam seu papel de reconfiguradores de agendas mais amplas que envolvem sua relação com a política. A televisão através de campanha nacional trata de coletar opiniões de indivíduos sobre temas nacionais e cujo tratamento  dos seus conteúdos pode ser gerado possível dossiê para orientar ações do futuro presidente eleito³.    

A “revolução do acesso” provocada pela internet muda o paradigma comunicacional, especificamente, as relações entre os indivíduos; entre estes e com as instituições; e as formas de conhecimento. O apelo do “faça você mesmo” modifica a cultura de pesquisa e de consulta, desestimulando mediações   fundamentadas no ideário do “fazer em companhia”. 

Um dos possíveis efeitos do aparecimento deste fenômeno, também nomeado como a “religião dos dados”4, é o enfraquecimento do contato direto das instituições  e de seus especialistas, com o “homem ordinário”, inibindo demandas uma vez que não há para onde endereça-las. Resulta, além da impessoalidade, a descrença, o enfraquecimento e o desencanto para com as práticas institucionais vigentes (e também as emergentes). 

Esta condição de “desamparo” provocada pelo desinvestimento nas mediações enseja, paradoxalmente, estranho aparecimento de novas formas de mediadores. A nova arquitetura comunicacional das redes permite a qualquer pessoa se auto investir nesta condição em âmbitos ainda fortemente marcados por rituais institucionais, como por exemplo o campo da saúde. 

Atividades mediacionais que repousavam nas fronteiras de sistemas específicos, são dinamizadas através de elos de interpenetrações entre diferentes sistemas, através de operações discursivas realizadas através de acoplamentos de suas narrativas (judiciário, policial, midiático). Elas se contatam, se codeterminam, se expandem e se realimentam, como por exemplo as metodologias da “Operação Lava Jato”. 

Dissídios envolvendo atores do campo educacional vão para esfera da justiça em busca de outras arbitragens. Mas, antes, ingressam no circuito de redes sociais cujos efeitos de tribunalização e de julgamento são mais eficazes, do ponto de vista da publicização das questões que são objeto de causas e de reclamações. 

Circuitos entre política e sociedade são interrompidos através de “dispositivos de vigilância” dos atores sociais que impedem manifestações de atores políticos. Também criam circuitos de “autocomunicação” que dissolvem a enunciação de porta-vozes institucionais. 

O CISECO não pode deixar de reconhecer o fenômeno dos Fake News, interrogando o que ele tem a ver com a midiatização e suas afetações sobre a democracia representativa. Manifestações das “notícias falsas” revelam pistas de várias problemáticas que interessam nossos debates, particularmente aquelas que tem relações o tema central deste Pentálogo. Vimos que os efeitos da nova “arquitetura” comunicacional chamam atenção para expansão e dinamização de operações tecno-midiáticas e, muitas delas se passam por dentro de sistemas institucionais. Mas, devemos salientar que outras tensões se movem em torno de lógicas apontando que os processos interacionais operam em divergência e em desarticulação com lógicas sistêmicas longe, portanto de dinâmicas de equilibro. 

Quando se examina a midiatização das notícias falsas, devemos levar em conta   complexas condições de sua enunciação e de sua circulação de sentidos.  Sua existência é metaforicamente associada à noção de vírus exteriorizando-se discursos que sugerem “guerra” e ataque via “medicamentos” que possam conter suas ações expansionistas e, de caráter letal. As promessas terapeutizantes dos novos “contratos comunicacionais” – “livre acesso, livre fluxo, máxima transparência” – formuladas segundo ofertas de lógicas de redes, não podendo ser cumpridas, geram como resposta, inevitáveis fechamentos de circuitos pela mediação de vários discursos sóciais, que expressam sentidos de pretensões regulatórias (legislações, fiscalização, etc), mas discutível efeito positivo, em termos de combate. As notícias falsas são espécies de “sobras malditas” dos circuitos da midiatização em processo que, ao invés de acentuar a uniformidade social, leva-nos a funcionamentos significantes cada vez mais complexos, conforme sugere a obra veroniana. A produção de sentidos se passa em torno de feixes de relações entre nichos de produção e de recepção de discursos, segundo condições não-determinísticas. E, as fake news se materializam segundo atos de enunciações que chamam atenção para as condições de sua circulação que se faz cada vez mais equidistante das noções de equilíbrio e da convergência.

A proposta aqui apresentada, segundo as questões que vão nortear as discussões deste Pentálogo, visa enfatizar processos e operações que se alternam entre conexões, articulação e expansão e, ao mesmo tempo, de    encolhimentos e retrações de circuitos sócio-comunicacionais e, no tecido da semiosis. A ênfase na divergência resultante desta articulação, se constituiu em uma das características centrais do funcionamento da midiatização nos cenários de reconfigurações da democracia representativa. 

O CISECO considera que, além destas reflexões propositivas, algumas proposições como as que seguem, servem também como justificadoras norteadoras para a realização do seu Pentalogo IX:

a) O trabalho da midiatização vai além de uma dimensão determinística, chamando atenção para diversidade sócio-comunicacional que se manifesta, em torno de feedbacks complexos e não lineares. Significa que processos interacionais envolvem movimentos relacionais que vão além de lógicas de ofertas midiáticas considerando também aqueles que emanam, de instituições de várias naturezas; 

b) As dinâmicas da midiatização que envolvem as reconfigurações da democracia representativa devem ser estudadas na própria processualidade das interações, pois as articulações entre fenômenos midiáticos e não midiáticos são caracterizadas por tensões e contradições importantes. 

c) Devemos buscar novos caminhos metodológicos para acceder aos processos através dos quais sistemas sociais e sócio individuais se apropriam de fenômenos midiáticos para assegurar suas próprias atividades auto-organizantes. E, de modo especial, face a complexidade do tema e do objeto deste Pentálogo, devemos “concentrar nossos esforços na compreensão de regras que dão formas às múltiplas estratégias ativadas por sistemas sócio-individuais (indivíduos) para fazer frente a um ambiente crescentemente midiatizado”5.

<<Confira a versão em inglês>> 


[1] Entrevista completa em: FAUSTO NETO, Antonio; MOUCHON, Jean; VERÓN, Eliseo (orgs). Transformações da Midiatização Presidencial: corpos, relatos, negociações, resistências. São Caetano do Sul: Difusão Editora, 2012.

[2] VERÓN, Eliseo. Fragmentos de um tecido. São Leopoldo: Unisinos, 2004. p.278

[3] Vide campanha da Rede Globo “O Brasil que eu quero para o futuro”. Disponível em g1.com.br

[4] HARARI, Yuval Noah. Homo Deus: Uma breve história do amanhã. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

[5] VERÓN, Eliseo. Teoria de la mediatización: una perspectiva semio-antropológica. In: CIC Cuadernos e Información y Comunicación, 2015, vol.20, p.173-182. p..181

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