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Entrevista com o pesquisador Antônio Pasquali

Entrevista
Democracia, autoritarismo e comunicação: conversa com o pesquisador venezuelano, Antônio Pasquali

 

A grande surpresa do Congresso da ALAIC – Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación – que aconteceu em San José, Costa Rica (31/07/ 2018) foi o encontro com o professor Antônio Pasquali, um dos mais renomados pesquisadores do fenômeno da comunicação na América Latina, hoje com 98 anos. A sua presença ali fez voltar ao passado e relembrar a sua passagem pela Faculdade de Comunicação Social da Puc-Minas nos anos 1970, a convite do professor Lélio Fabiano dos Santos, então diretor da Faculdade e Antônio Fausto Neto seu vice, ainda nos seus primeiros anos de existência.

Mesmo diante do obscurantismo da ditadura que o Brasil vivia, a ousadia e a postura política dos dois professores - pioneiros da discussão teórica sobre comunicação em Belo Horizonte -, trouxeram para a faculdade as ideias do pesquisador venezuelano, que defendia o pensamento crítico da Escola de Frankfurt, incentivando o debate entre professores e alunos sobre a perspectiva latino-americana da comunicação, uma visada crítica da teoria da comunicação. A Escola, como era chamada a Faculdade, distinguia-se pelo clima de experimentação, inquietação e pela proposta de ser um espaço cultural e acadêmico de abertura, de debates e de convivência, num contexto de repressão que vivia o Brasil.

A perspectiva teórica de Pasquali valorizava o caráter dialógico da comunicação, desviando-se da perspectiva informacional, para mostrar que a comunicação é “bivalente”, pois tanto o emissor quanto o receptor, podem receber e transmitir informações. Para o pesquisador, a descoberta do “outro” se dá a partir da capacidade de comunicar como instrumento da interação e do com-saber. Ele desenvolve análise crítica do emissor, por entender que seus interesses, sua posição nas estruturas de poder e suas vinculações econômicas condicionam as mensagens transmitidas. Junto à Jesus Martin Barbero, Ramiro Beltrán, Mário Kaplun, Paulo Freire e Armand Mattelart, Pasquali, desenvolveu as principais teorias da Comunicação da América Latina, tornando-se uma grande referência para o campo da Comunicação.

O seu mais recente livro La Comunicación Mundo: releer un mundo transfigurado por las comunicaciones (Pasquali, Antônio. Sevilla: Editora Comunicación Social, 2011), nos convida a pensar a sociedade, a partir da perspectiva de comunicação. Ele denomina a atualidade como a “Era das Comunicações” demonstrando como a abundância das comunicações na internet, a sua natureza democrática, a forte presença da radiotelevisão e a universalidade da comunicação têm modificado as relações humanas, o comércio, os métodos educativos e a política. Em um trecho de sua obra, Pasquali detem-se na discussão sobre os desafios que as novas TICs colocam para os processos educativo e comunicativo:

Transferir saberes y valores es tarea aún más compleja hoy día que en la era de la presencialidad, por la dificultad inter alia de garantizarse que el océano de información disponible en la red logre sedimentar sólidos conocimientos armoniosamente integrados a la personalidad del educando, satisfacer a distancia capacidades y sensibilidades específicas sin olvidar el entorno axiológico y sea capaz de asegurar un feliz retorno a la realidad, a la praxis y a lo social tras una larga fase de aprendizaje digitalizado. Sin embargo, con los cinco puntos anteriores en mente, el perfil de la nueva educación para la era electrónica comienza a vislumbrarse siquiera en sus aspectos propedéuticos. Sin excepción, todo aspirante a transmitir a otros una educación de calidad deberá previamente convertirse en technítes de los nuevos artificios que la humanidad se ha dado para crear, conservar y comunicar saber, adquirir sólidos conocimientos en la lógica de la computación y de la red y bien rodadas destrezas para la plena explotación de sus gigantescas capacidades y la detección de eventuales supercherías, para la creación, búsqueda, almacenamiento y recuperación de elementos del saber, y asimismo para la puesta en común de conocimientos mediante formación de mini-redes o grupos de interés compartido de alcance local o mundial (lo que requerirá el manejo de más de un idioma).

Sugere, assim no seu livro, repensar a contemporaneidade “aplicando categorias comunicacionais e de acúmulo de saberes, revelações e complicações trazidas pela tecnologia”. Os temas analisados estão divididos em cinco blocos, primeiro descreve e analisa os dois códigos que mudaram o mundo, o alfabeto linear do século XIV a. C. e o dígito binário no século XX; a cidade como o espaço da intersubjetividade e da comunicação; a liberdade de expressão na era eletrônica; as formas de conservação, elaboração e transmissão do saber na sociedade do conhecimento; o lugar do pensar frente as máquinas inteligentes e os processos políticos de integração na Era das comunicações. Aborda também, no livro o caso da Venezuela, chamando a atenção para a realidade vivida em seu país de constante ataque à liberdade de comunicação, restringindo a liberdade política.

A conversa promovida, regada pela simpatia e brilhantismo do Pasquali, abordou às questões atuais que envolve o campo da comunicação a sua relação com a democracia, com o autoritarismo e influências na midiatização. O pesquisador venezuelano continua pensando a comunicação na perspectiva do sul, como ele disse e da integração latina americana, questionando o lugar das práticas capitalistas exacerbadas nesse processo.

Aqui, a conversa com Antônio Pasquali.

O que o senhor pensa da comunicação na contemporaneidade?

Acredito que a comunicação tem passado por dois tsunamis. O primeiro devido a incessante mudança tecnológica que, por um lado, democratizou a comunicação via Internet, porque levou para todo o mundo a possibilidade de se comunicar e isso é algo positivo, mas continua sendo um tsunami porque criou um abalo no mundo da comunicação. Por exemplo, as estatísticas mundiais dizem que a internet está se tornando uma fonte de informações mais usual que a televisão, porem na América Latina isso ainda não esta acontecendo, pois as pesquisas assinalam que 80% das pessoas ainda tem a televisão como a principal forma de ficar sabendo das noticias. Isso demonstra uma sacudida tecnológica, que indica o quanto somos vitimas e benificiários. Já o segundo tsunami refere-se às mudanças políticas que estamos assistindo nos últimos anos e que impactam pesadamente a comunicação. Na Europa por exemplo, há nesse momento, 3 ou 4 países, onde os governos semipopulistas, estão tentando tomar por assalto o serviço de rádios e televisões publicas para convertê-las em serviços privados e comerciais. Na América Latina, está acontecendo o mesmo. O caso da Venezuela é um caso ainda mais patético. Passamos de um sistema casualmente comercial para um sistema casualmente econômico governamental. Os interesses comerciais foram substituídos por interesses ideológicos. Uma radio nacional, que costumava tocar musica clássica não consegue fazer 15 minutos de sua programação normal, devido às propagandas em favor do governo. Então, a comunicação aqui no continente não evolui, lamentavelmente. Não há progressos e segue sendo o que era nos anos 1930. Eu diria, inclusive, que, de certa forma, piorou. Por exemplo, as rádios venezuelanas nos anos 1940 e 1950 tinham orquestras próprias, coros próprios. Hoje já não têm nada disso, tudo isso acabou. Atualmente tudo é puramente música importada. Então, nosso mundo de informação, com algumas exceções, é um mundo doente. A América Latina não tem uma agência de noticias importante própria, ela até possui pequenas agências locais, mas eu me refiro a uma grande agência regional como se pensou há muitas décadas. Então, nesse momento, o panorama sobre o futuro da comunicação na América Latina não é alentador e devemos reconhecer honestamente que nós pesquisadores não nos inserimos suficientemente nas politicas comunicacionais de nossos próprios países.

Você pode falar das relações entre a democracia, autoritarismo e comunicação?

Eles tem uma relação bem visível. A comunicação é um direito humano essencial, não é uma invenção dos meios de comunicação e não foi inventada pelos nortes americanos quando começaram a falar de Freedom Of Expression. Não, ela faz parte da essência da liberdade humana, porque sem comunicação não há sociedade e sem ela também nenhum ser humano pode se converter em animal politico e consequentemente não pode se ingressar na polis, pois não saberíamos nada sobre o outro, não viveríamos em sociedade. A relação humana se estabelece basicamente dentro da comunicação. Comunicar-se é um direito essencial, que nos dá a capacidade de dialogo livre, nos permite escolher como, quando e a quem comunicar, o código, o canal, o conteúdo, a audiência etc. Além disso há também a liberdade de acesso às fontes, porque a liberdade é um prisma de cinco facetas, no qual pelo menos duas são bem claras: a minha própria liberdade e a capacidade de conviver sensatamente e pacificamente com os outros. O “outro” se torna o meu agressor quando ele homogeneíza a comunicação e se torna um quase único emissor, reduzindo-me à qualidade de puro receptor. Então, a relação entre democracia, o poder publico e a comunicação é essencial. Há democracia na medida em que temos liberdade de nos comunicar e onde se tem esta liberdade tem todo tipo de liberdade democrática.


O que você vê nos dias atuais no mundo que que parece viver um movimento para se tornar um mundo mais conservador, menos democrático. Em sua opinião, quais as consequências para a comunicação dentro deste contexto?

Obviamente ela está sofrendo. Repito que, na Europa, os governos populistas conservadores estão agredindo os serviços públicos de radio e televisão. Eles querem se apropriar desses meios para convertê-los em instrumentos de sua ideologia política. Refiro-me ao grande serviço público europeu - Inglaterra, Alemanha, França e Itália - que são os quatro grandes modelos mais ou menos perfeitos, por assim dizer. A perfeição absoluta não é algo desse mundo. Nem a BBC inglesa é um modelo 100 % perfeito. Posso dar um exemplo concreto: há uns seis meses, houve um forte tentativa do governo conservador inglês de fechar a BBC. Há uma velha lei, posterior à Segunda Guerra mundial, que concede a todo ex combatente a gratuidade do serviço público de televisão, porque você tem que pagar pelos serviços públicos na Europa. Pois bem, essa gratuidade representa um gasto de milhões de libras esterlinas para a Inglaterra e o governo conservador fez uma tentativa de cessar esse tipo de regalia fechando a BBC o que faria eles economizarem 40, 50, 60 milhões de libras esterlinas. Na Itália, eles querem converter a RAI em um sistema comercial. Na França, já fazem uns quinze anos que o governo converteu o grande canal público do país em canal privatizado e comercial. E a guerra contra o sistema público continua. Os países com serviço publico são cinquenta e seis. São todos países democráticos. Onde não há democracia, não há serviço público governamental, independente do governo. No caso da Inglaterra, ela é cada vez menos lembrada pelo governo. A Independent Autority, escolhido pela própria rainha da Inglaterra, sequer foi nomeado recentemente. Os meios estão passando por um mal momento e olha que eu nem falei da América do Norte, que segundo as noticias, o senhor Presidente Trump esta proibindo sua mulher de ver o canal da CNN, porque para ele existe apenas o canal FOX, que é um canal de republicanos.

 

Qual o futuro da democracia representativa e quais são as implicações da midiatização sobre elas?

Bem, essa pergunta é muito difícil. Posso dizer que sou partidário da ideologia de Churchill: o sistema democrático não é completamente perfeito, porém todos os outros são piores. Creio que isso é totalmente verdade, o que acaba me tornando um partidário irrefutável do sistema democrático imperfeito, que é o menos maléfico. Ele existe porque oferece uma margem mais ou menos grande de liberdade institucional e política. Não gosto de fazer prognósticos sobre o futuro, porque, geralmente, isso é um exame de estatísticas que pertence aos grandes prognosticadores, incluindo todos os magos da eletrônica e que em geral se equivocam. Então, não gosto. Profetizar qualquer coisa é perigoso. Porém, estamos passando por uma fase de grande perigo na comunicação mundial. Veja bem, a internet trouxe o oxigênio de uma liberdade muito importante: o conhecimento mundial ao alcance de qualquer um e este é um saber cada vez menos imperfeito. Sim, eu sou um fã do Wikipedia pelo fato dela não aceitar dinheiro do governo, nem de publicidade comercial. Vive de doações de 20 dólares dos usuários e eu espero que continue assim. Bem, na Alemanha, quiseram fazer um teste em uma faculdade e os pesquisadores perguntaram a professores e pesquisadores que comparassem 18 definições tiradas de textos universitários alemães. A professora falou pelo menos 6 definições que estavam entre os textos e a Wikipédia, tinham o mesmo conteúdo. Então, é algo que vai melhorando a cada dia. Mas esse excesso de liberdade também atrai muitos inimigos. Sabemos que existe um processo de oferecer uma internet barata, cheia de publicidade, manipulada por grandes empresas para os pobres e uma paga sem publicidade para os mais ricos. Isso infringe o principio que o saber deveria ser gratuito a todos. Isso representa um perigo nos diferentes governos que temos hoje. O governo Trump está deixando para trás todas as boas decisões favoráveis sobre internet que foram tomadas no governo Obama. Por exemplo, a livre circulação de toda informação, sem nenhuma discriminação nas redes está em perigo. Corre o risco de passar a ser manipulada e não estou me referindo apenas ao sistema de publicidade, que está cada dia mais feroz. Se me permite dou um exemplo: Há alguns dias, vi passar pela minha tela um sofá e por um segundo passei a olhá-lo porque tinha um parecido. No dia seguinte, recebi um e-mail de um produtor inglês me perguntando se tinha vontade em adquiri-lo já que tinha demonstrado interesse nesse tipo de produto. Ele me oferecia mais opções desse tipo de mercadoria. Ou seja, a publicidade chegou a um ponto de abuso que espiona tudo o que vemos, escrevemos, e fazemos e leva essas informações ao sistema comercial - o que é realmente um abuso, uma invasão de privacidade, o que gera um prognóstico negativo nesse sentido. Todos nós temos que lutar por uma liberdade irrestrita, por uma liberdade racionalmente sensata, sobretudo nas redes. Veja por exemplo a decisão inteligente de Zuckberg de declarar que não aceita fake news na sua rede social. Porém, até as fake news têm um pressuposto de liberdade. Isso me lembra minha visita há vinte anos ao parque Yellowstone nos Estados Unidos. Há mais ou menos uns vinte cinco anos, aconteceu um incêndio feroz que destruiu milhares e milhares de hectares de pinho nesse parque. Naquela oportunidade, os ecologistas americanos chegaram à conclusão que não era necessário forças pra apagar o incêndio com o argumento que seguramente, no milênio passado, raios que caíram na floresta foram responsáveis por muitos incêndios. O raio cai e gera um incêndio e se a natureza não apaga esse incêndio nada mais deveria apagá-lo. Pois essa queda e posteriormente o incêndio fariam parte da vida natural. Isso para mim é uma aberração, uma ideia romântica de liberdade. Acredito que o mito que melhor explica a situação contemporânea da liberdade é a epopeia do faroeste. O faroeste representou uma expansão de liberdades. As pessoas em busca de liberdade de ter suas próprias coisas, terras, uma vida melhor etc. Porém, assim que começava a parte positiva nas historias, começava também a parte negativa, o ladrão, o assassino, aquele que agredia, no qual gera uma necessidade de um terceiro personagem no mito do faroeste, que é o xerife. Particularmente, acredito que toda liberdade necessita de um xerife, porque o ser humano possui uma coisa chamada direitos, que limita a liberdade para que todos possam, ao final, desfrutá-la. Da mesma forma, acontece na comunicação, há fake news, há excesso de publicidade, há invasão de privacidade, então é necessário um xerife, alguém que proíba certos abusos, porem não como forma de manipulação e sim para garantir a sua liberdade e a minha também.

 

Ivone de Lourdes Oliveira (PUC-Minas)
Mozahir Salomão Bruck (PUC-Minas)

 

 

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