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BRUMADINHO: uma catástrofe observada sob três diferentes ângulos

 

Entrevista - Valdir de Castro Oliveira - Foto concedida pelo entrevistado

PERGUNTA: O que vai tratar no vídeo a ser apresentado no encontro do CISECO? Quais são os ângulos da catástrofe em Brumadinho mais fundamentais ao debate?

RESPOSTA: O vídeo será o relato de reportagem feita por mim, na condição de pesquisador, jornalista e morador de Brumadinho logo após o rompimento da Barragem do Córrego do Feijão no dia 25 de janeiro de 2019, às 12h28, da mineradora Vale, que deixou 248 mortos e 22 desaparecidos (contabilidade atualizada) e incalculáveis prejuízos ambientais, econômicos e sociais, diretos e indiretos. Esta reportagem abordou ainda como esta tragédia afetou o dia a dia da população e como ela se valeu de várias formas de comunicação para responder e expressar os seus sentimentos e simultaneamente se posicionar politicamente diante deste fatídico acontecimento.

 

P: Qual a compreensão que a sociedade local tem deste triste acontecimento (ruptura da barragem), além do sentimento de perda, tanto humana quanto material; sobretudo, vendo o chão em que moram ser invadido pela lama de uma instituição que se propunha a oferecer progresso e desenvolvimento?

R: A compreensão sobre esta tragédia pode ser vista a partir de três ângulos.

O primeiro é constituído pela visão institucional da empresa sobre a segurança das barragens de rejeitos na região de Brumadinho, Belo Vale e Congonhas onde atua na extração de minério de ferro expressa através dos seus boletins impressos distribuídos para a população durante todo o ano que antecedeu esta tragédia. Nestes boletins a empresa reiterava forte apreço pela segurança por estas barragens e a certeza de que eram completamente seguras. Como efeito-demonstração desta certeza, em cada edição destes boletins mostrava as visitas que a elas eram feitas pela população que morava no seu entorno e seus respectivos depoimento, ao lado dos depoimentos de técnicos da Vale nos quais reiteravam a sua completa segurança. Nestes boletins estes depoentes explicavam também as instruções recebida de como deveriam proceder em caso de um possível rompimento de alguma dessas barragens e de como foram supostamente treinados caso isso acontecesse, além de informar sobre os sofisticados sistemas de alarmes composto de sirenas que soariam em caso de acidente permitindo que a população pudesse ser rapidamente evacuada das zonas de perigo.

Esta prática discursiva, além de reiterar o ethos institucional da empresa, explorava também a imagem e os rostos dos depoentes e técnicos da Vale de onde teciam loas aos cuidados da empresa com a segurança das barragens ao sistema de segurança por ela instalado em cada uma.

O outro ângulo pelo qual esta tragédia pode ser analisada é o da imagem pública da Vale como uma grande empresa que emprega milhares de pessoas e movimenta uma complexa rede econômica na Região Metropolitana de Belo Horizonte, cujo contexto minerador remonta aos anos de 1910.

Comparando esta empresa com outras empresas mineradoras instaladas nesta região, pode se dizer que trabalhar na Vale era o sonho dos trabalhadores de Brumadinho ou da região metropolitana de Belo Horizonte. Tendo chegado a Brumadinho em 2001 para explorar a Mina do Córrego do Feijão, que era explorada por outras empresas desde a década de 1940, e a Mina da Jangada, que ficavam próximas uma da outra, ela trouxe novos métodos e novas tecnologias de extração do minério de ferro que a permitiram aumentar exponencialmente a produção e a produtividade do minério de ferro nestas minas. Isto a levou a ampliar a contratação de mão-de-obra e a terceirização de parte de suas atividades através de várias empreiteiras. No âmbito do trabalho dessas minas, a empresa se mostrava extremamente exigente com os trabalhadores em termos de segurança, o que alguns consideravam como precauções exageradas. Em contrapartida ela oferecia muitas oportunidades de ascensão dos trabalhadores nos quadros da empresa, patrocinava cursos diversos para eles ou os estimulava a estudar, o eu destoava das condições de trabalho das outas mineradoras instaladas na região.

Simultaneamente, a empresa ajudava a aquecer a economia local tanto a partir da renda dos empregados que nela trabalhavam, quanto através das transações de bens e serviços que fazia no município e na região

Ademais, e à diferença de outras mineradoras, ela mantinha (e ainda mantém) várias atividades de apoio cultural e social ao município com projetos de incentivo à cultura, como a Estação Conhecimento, voltada para jovens esportistas do município, e apoio a organizações não governamentais, como entidades beneficentes e ao próprio Inhotim Museu de Arte Contemporânea inaugurado em Brumadinho em 2004.

Trabalhar nesta empresa era, portanto, sonho e motivo de orgulho da maioria dos trabalhadores locais e de tantos outros atraídos pelas boas condições de trabalho oferecidas pela empresa.

Entretanto, nada, nada disso evitava que a empresa entrasse frequentemente em conflito com as comunidades instaladas no entorno das suas minas ou com ambientalistas locais.

No primeiro caso, os conflitos costumavam eclodir, principalmente, por causa da poeira exalada das atividades da jazida do Córrego do Feijão ou da Jangada ou por causa do intenso tráfego de caminhões carregados de minério nas estradas locais. Em outros casos, era por causa da degradação que provocava nos cursos ou nascentes d’água que abasteciam estas comunidades em decorrência de suas atividades de extração de minério. Conforme revelam as atas das reuniões ou das audiências públicas feitas entre a empresa, a população local e os órgãos públicos, como a Secretária Municipal de Meio Ambiente de Brumadinho ou do Estado.

Mas fora isto e algumas outras críticas pontuais ou genéricas às atividades de mineração, a população do município convivia em relativa paz com a Vale e as outras mineradoras cujos impostos faziam com que o seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDC) fosse superior ao da maioria dos outros municípios da região metropolitana de Belo Horizonte.

Apesar disso, era comum no município se repetir o slogan político da década de 1950 de que “minério não dá duas safras” para dizer que o município tinha consciência de que em algum momento essa fonte de riqueza se esgotaria e que, antes que isso acontecesse, era preciso investir ou estimular outras atividades econômicas de olho no futuro, como o turismo, aproveitando o estímulo do Inhotim Museu de Arte Contemporânea que atrai mensalmente milhares de pessoas ao município.

Esta determinação vem do fato de que, apesar de ser um município minerador, Brumadinho possui ainda um ambiente natural relativamente bem preservado e exuberante cuja localização no coração da Região Metropolitana de Belo Horizonte e ao lado dos vizinhos municípios de Ouro Preto e Mariana, outros dois polos de mineração, era estratégica para transformar o turismo em uma importante fonte de geração de renda e emprego, embora neste momento essa promissora via de desenvolvimento tenha se esvaído rapidamente com a tragédia provocada pela Vale no dia 25 de janeiro de 2019.

O terceiro ângulo pelo qual podemos observar as consequências desta tragédia é pelas maneiras de como a população, em contrapartida aos boletins ou à comunicação institucional da Vale vem, principalmente depois da tragédia, construindo uma outra inteligibilidade, tanto sobre este acontecimento em si quanto sobre a própria empresa e suas respectivas atividades de mineração na região.

A começar pelos interesses estratégicos desta empresa, os quais vêm se mostrando, cada vez mais, sobrepostos às ideias de segurança, sustentabilidade ou aos interesses difusos da sociedade. Sabe-se hoje que o potencial perigo de rompimento da barragem de rejeitos do Córrego do Feijão era uma espécie de tragédia anunciada cujas precauções, se tomadas a tempo, provocariam provavelmente a paralisação total ou parcial das atividades desta mina com prováveis repercussões em sua cadeia de comando responsável pelo cumprimento das suas metas de produção cuja oscilação negativa teria repercussões junto aos investidores deste empreendimento, principalmente aqueles que atuam na empresa através da bolsa de valores enfatizando um modelo de gestão onde o resultado econômico de suas atividades é traduzido pela ascensão dos valores de suas ações das bolsas de valores.

Pois bem, foi a partir desta tragédia que pela primeira vez a sociedade local passou a compreender as atividades de mineração e da empresa Vale no município simultaneamente por estes três ângulos, através dos quais vem aos poucos compreendendo e explicitando as condições e as contradições deste tipo de atividade e as graves responsabilidades que pesam tanto sobre estas empresas quanto para o Estado, com seus respectivos órgãos de regulação e fiscalização, e a sociedade.

 

P: Considerando a natureza do acontecimento, qual é o papel das narrativas de comunicação, na tentativa de explicar a gravidade daquele momento?

R: As narrativas anteriores sobre a Vale no município, como explicitado no item anterior, passaram a mudar desde a tragédia de Mariana em 2015 onde o temor de que alguma coisa semelhante pudesse ocorrer em Brumadinho, como de fato aconteceria em 2019. Diante disso a população, as mídias locais e as mídias de largo alcance, assim como as redes sociais computadorizadas, passaram a alimentar um discurso mais crítico realimentando as conversações dos moradores locais a este respeito. A emergência destes discursos passou a construir uma outra inteligibilidade tanto sobre a empresa quanto sobre a tragédia, que passou a ser compreendida muito mais como um crime ou resultado de uma deliberada negligência da empresa do que como simples acidente. As próprias proporções deste fatídico evento e o grau de emotividade nele contido com imprevisíveis prejuízos econômicos, ambientais e emotivos afetando, direta ou indiretamente, milhares de pessoas fez com que a sociedade passasse rapidamente de um discurso passivo ou elogioso sobre a empresa para um outro discurso que apontava para as contradições deste tipo de empreendimento e dele cobrava reparações.

Com isso, a comunicação originada por diversos suportes e dispositivos comunicacionais passavam a apontar, por um lado, para a riqueza gerada por este tipo de atividade e, por outro lado, para os efeitos provocados tanto no meio ambiente quanto em diversos segmentos da população local.

Uma coisa ficou certa. Apesar das enormes proporções da tragédia de Mariana em 2015, pouca coisa parece ter sido assimilada para evitar que tragédias semelhantes aconteçam. Mas, como ocorreu, a luta agora é para que a mesma impunidade não se repita também em Brumadinho.

Por isso, neste momento, algumas entidades do Estado, como Ministério Público, a Defesa Civil, a sociedade civil local, as mídias locais e a mídia nacional estão envidando vários tipos de esforços e construindo narrativas mobilizadoras para mostrar de como esta tragédia impactou o cotidiano local e de como exigir as devidas reparações morais e econômicas e simultaneamente evitar tragédias similares no futuro.

 

P: Que aprendizados as instituições e a sociedade local estão tirando da situação?

R: O principal aprendizado é de que nem sempre a empregabilidade oferecida por este setor e o incremento das atividades econômicas em um determinado território pode ser feito de qualquer jeito e sem o olhar crítico e ponderador da população ao lado das entidades de regulação e fiscalização do Estado e da própria sociedade. Aprendeu-se também que a segurança exigida da Vale em termos do comportamento individual dos seus trabalhadores não pode substituir a segurança coletiva, não apenas no ambiente do trabalho, mas também da sociedade que vive no seu entorno. 

 

P: Como é viver nesse contexto de prejuízos de várias naturezas?

R: Neste momento, o prejuízo maior está na dor e na revolta dos moradores. Em um município pequeno, como Brumadinho, com cerca de 40 mil habitantes, a morte simultânea de quase trezentas pessoas afetou a todos. A maioria dos mortos era conhecida de todos na cidade. Eu mesmo perdi dois sobrinhos diretos, e mais seis indiretos, afora dezenas de conhecidos que nunca mais verei, que já foram identificados ou ainda fazem parte do rol dos desaparecidos.

Além disso temos que conviver com o som triste do alto-falante da igreja local que alcança quase toda a cidade e que, através dos acordes iniciais das bachianas brasileiras tocados quase que de hora em hora anunciava o velório ou o enterro de mais uma vítima encontrada pelos heroicos bombeiros e seus valorosos cães farejadores.

Junto com estes fatídicos acordes, os moradores, principalmente os das comunidades rurais, ainda tinham o desconforto de testemunhar os voos rasantes dos helicópteros dos bombeiros sobre suas casas com corpos dependurados resgatados em mais uma de suas heroicas missões.

Isto, inevitavelmente, levantava a pergunta: “Será que encontraram fulano ou sicrano ou, será o meu irmão, o meu marido, minha mulher” e assim por diante.

E neste momento sabe-se que a maioria dos mortos foi encontrada e identificada. Mas ainda há 22 pessoas desaparecidas e 22 famílias que não sabem o que fazer, pois além de não receberem notícias, também não recebem os seus salários e nem indenizações ou compensações pela Vale, pois não estão oficialmente mortos.

Ou seja, estão no limbo desta tragédia.

Neste momento, a Vale está pagando um salário mínimo a cada morador do município que, como uma espécie de cala-boca, tem servido mais para inflacionar o mercado local cujos preços no comércio triplicaram, frente a uma inusitada demanda gerada por esta “indenização”. Com este dinheiro, alguns jovens estão investindo no sonho de consumo de roupas ou motocicletas, alguns pedindo demissão do emprego, outros viajando. Ao final, em um ano, a Vale pagará durante um ano cerca de doze mil reais a cada morador adulto, independentemente de sua condição social ou de ter sido atingido ou não por esta tragédia, situação que alguns avaliam negativamente como uma espécie de bolha econômica que, ao final, vai estourar.

É irônico constatar que nas filas para receber este benefício estão moradores dos condomínios de luxo do benefício que, além de não precisarem desta ajuda, moram a dezenas de quilômetros de onde aconteceu esta tragédia (o município tem seiscentos quilômetros quadrados e o raio de abrangência da tragédia ocupa um espaço diminuto da área do município).

Enquanto isso o SUS local se desdobra para dar assistência médica e psicossocial a população, ao lado da Defesa Civil e das atividades da sociedade civil de Brumadinho e de outras regiões.

 

P: Apesar da tristeza, o que é possível destacar quando se pensa em ajuda, em solidariedade?

R: Em termos de solidariedade, espanta-nos de que maneira várias entidades e instituições públicas e privadas trabalharam para amenizar a tristeza e os desconfortos advindos desta tragédia. A começar pelos primeiros dias quando voluntários de vários países do mundo, entre eles o México, Peru, Bolívia, Itália, Alemanha, entre outros, aqui chegaram e se enterraram na lama tóxica da Vale para ajudar a encontrar os desaparecidos ou confortar aqueles que perderam algum parente, amigo ou irmão nesta tragédia. Também várias igrejas cristãs, principalmente a Igreja Católica, se uniram nos esforços para consolar as pessoas, assim como os profissionais locais de saúde através do SUS local e simultaneamente os moradores locais que passaram a se unir em torno de vários movimentos, tanto para dar continuidade à vida no município quanto para exigir as devidas reparações por parte da Vale. É o que Jürgen Habermas chama de lebensewlt, o mundo da vida, como uma instância de poder que se opõe aos interesses econômicos ou ao que ele chama de interesses estratégicos os quais são movidos mais pelo poder e pelo dinheiro do que pela solidariedade que nasce das relações intersubjetivas dos sujeitos sociais.

  

P: Qual o impacto do episódio na sua experiência humana e, também, intelectual?

R: Como alguém que pensa a comunicação, julgo que essa tragédia nos distancia de um modo de discussão pública que vinha até então sendo feita sobre a comunicação e a mobilização social. Ou seja, acostumamo-nos muito em discutir o papel social e político da comunicação a partir das mídias convencionais e de largo alcance e o efeito de suas mensagens junto às movimentações e às expressões da sociedade, mas várias vezes negligenciando o fato de que muitas mensagens ou fluxos informacionais postos em circulação pela sociedade são produzidos à margem destes dispositivos e que hoje nem sempre contam com estruturas profissionais para produzi-los, como é o caso das redes sociais propiciadas pela Internet.

Isto nos traz a necessidade de refletir sobre o papel mobilizador da sociedade na contemporaneidade que, se por um lado conta com a profusão quase que infinita de suportes midiáticos, proporcionados principalmente pelos recursos computadorizados, por outro lado, impõe a demanda de se estudar os alcances e os limites desta mobilização de maneira a estabelecer contrapontos ao mundo dos interesses estratégicos que, como nos mostra Habermas, não convive pacificamente com o mundo da vida de onde os atores sociais buscam extrair outros sentidos e formas de razoabilidade daquilo que conforma a vida social  vida que vai muito além daqueles  interesses proporcionados, principalmente, mais por interesses econômicos do que societários.

Infelizmente,  este sentido da vida só costuma dar o ar de sua graça quando acontecem tragédias como estas que aconteceram em Mariana ou Brumadinho cujos desdobramentos acabam potencializando a emergência de novos modos de comunicação, mostrando-nos ser possível criar ou estabelecer novas e diferentes redes horizontais de comunicação capazes de mobilizar os agentes sociais e seus respectivos sentidos para construir novas inteligibilidades sobre o cotidiano social e atingir  poucas ou milhões de pessoas, mobilizando-as para construir novos sentidos e novos acordos sobre  os acontecimentos e a vida social.

Isto nos levou a considerar que os atuais fenômenos comunicacionais podem ganhar dimensões não pensadas nos estudos convencionais de comunicação de maneira que, através destas dimensões, sejam capazes de reiterar as premissas de alguns  autores que estudaram a comunicação na perspectiva não hegemônica, isto é, aquela não atrelada aos interesses estratégicos do dinheiro e do poder, como assinalou Habermas, ou como Walter Benjamin, quando insiste na comunicação enquanto narrativas a contrapelo, isto é, modalidades de comunicação que fazem aflorar determinados princípios ou sentidos dentro de uma estrutura social hegemônica (Walter Benjamin, Obras escolhidas, Editora Brasiliense, São Paulo, 1994), forçando o resgate ou impondo a emergência daquilo que ficou ou poderia ficar soterrado no limbo da história.

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